25 de janeiro, 2024

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A vigária-geral

Por Pedro Valinho Gomes

Rebecca Charlier-Alsberge é a mulher que agora ocupa a função pastoral de delegada episcopal no vicariato do Brabante-Valão, na diocese de Malinas-Bruxelas. Em várias dioceses da França e da Alemanha, a função de vigário-geral, tradicionalmente ocupada por um padre, está agora também a ser confiada a uma leiga ou um leigo. Este caso tem, no entanto, uma particularidade: a complexidade da diocese de Bruxelas faz com que cada vicariato fosse até agora conduzido por um bispo auxiliar. Rebecca “substitui” portanto agora o bispo-auxiliar Jean-Luc Hudsyn, agora emérito. É uma decisão simbolicamente forte, que nos diz algo sobre a reimaginação da pastoral a acontecer lentamente nas nossas comunidades cristãs (às vezes demasiado lentamente, é certo, como denunciam as aspas que coloquei ainda agora junto ao verbo “substitui”, mas ainda assim a acontecer). A tarefa dessa reimaginação pastoral não é a de encontrar soluções para o que nos habituámos (e mal) a chamar de “problema de vocações”. A tarefa dessa reimaginação pastoral é a de transformar as comunidades segundo aquilo a que Deus hoje as chama (vocação).

Durante os últimos meses vi passar inúmeras previsões do que vem classificado como a “situação pastoral” das próximas décadas em diferentes latitudes. O que este título invariavelmente representa é pouco mais do que um extrato de excel denunciando uma queda catastrófica no número de padres daqui a duas ou três décadas (falamos de números divididos, no melhor dos casos, pela metade, por vezes muito, muito mais), ou de indicadores em baixa torrencial na dispensação de sacramentos, incluindo o batismo, a fazer prever num futuro já muito presente comunidades muito pequenas e dispersas, em alguns casos socialmente insignificantes. Os comentários que acompanham tais previsões trazem o tom grave da preocupação ou do alarme. Não conseguimos esconder a incerteza e o medo face a um mundo que termina, uma dor de parto de algo novo completamente inesperado, uma certa impotência até a imaginar o que seja esse “algo novo” na nossa aventura de ser igreja. Tememos o fim da aventura. Outras vezes ficamos com aquela sensação estranha de conduzirmos numa autoestrada em que todos os outros condutores vêm em contramão. É nesse momento que talvez seja importante questionarmos sobre o sentido.

Tenho uma certa militância anti-pastoral do excel. Que os números dos bancos ocupados nas nossas igrejas estejam em queda livre não é motivo de desespero. O evangelho permanece salvífico mesmo quando as igrejas são espaços vazios. A crise — porque se trata, de facto, de um momento de crise — é, no sentido grego da palavra krisis, ocasião de discernimento. A igreja continua hoje a ser chamada, como sempre foi na sua história milenar, a coisas novas. Talvez nos venha faltando a coragem de imaginar uma pastoral que não existe ainda. E fazê-lo não reativamente. A reação às provocações do tempo que passa, a resposta às ansiedades da situação presente fazem certamente parte da força evangélica. Mas há um mundo a imaginar criativamente, proativamente. E imaginar a pastoral não pode ser um exercício clérico-centrado, tentando ocupar a mesa do xadrez com os poucos peões que resistem. É a comunidade que tem de se reimaginar, nas suas relações, nos seus ministérios, na sua relação com o mundo, no seu imaginário teológico.

Que uma mulher substitua um bispo numa função pastoral fulcral para a vida da comunidade é sinal de que essa imaginação espiritual persite entre nós. A vigária-geral enche-me, por isso, de esperança.

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