19 de setembro, 2026

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Fátima é o coração da Igreja de Portugal

D. Andrés Carrascosa, representante da Santa Sé em Portugal, sublinha a dimensão internacional de Fátima e a genuína atenção que o Santuário dedica aos peregrinos oriundos de diferentes partes do mundo.

 

Já teve oportunidade de dizer publicamente que ficou emocionado quando soube que viria para Portugal. O que tem o nosso país que lhe cause essa emoção?

Eu também não sei porquê, mas é um país que sempre amei. Visitei-o algumas vezes de férias com a família. É um país que eu amo muito e fiquei muito contente.

 

Qual foi a sua primeira preocupação ao assumir esse lugar?

Tenho 41 anos de vida diplomática. Tento chegar aos lugares com a mente aberta, sem preconceitos, para tentar conhecer o país e a Igreja. Não mais.

 

Desde o início que diz que a sua primeira preocupação é escutar e disse-o também na conferência de imprensa da Peregrinação de Agosto. Do que já escutou, o que tem a dizer sobre a Igreja de Portugal?

Ainda são só seis meses. Querer fazer um diagnóstico depois de seis meses é pouco realista, mas visitei algumas dioceses e cada diocese tem a sua situação. Em cada diocese tem de se tentar conhecer a realidade, porque a realidade é mais importante do que a ideia. Como dizia o Papa Francisco, eu não posso num gabinete de Lisboa imaginar como é a igreja xis, tenho de ir escutar e ver. Depois vamos reagir de acordo com aquilo que é pedido.

 

Percebeu se as dioceses tinham desafios comuns ou se são tão diferentes entre si que as suas preocupações são também muito diferentes?

Também tive a oportunidade de estar várias vezes com a Conferência Episcopal Portuguesa. É uma Igreja que está a tentar colocar em prática a linha universal que é a de uma Igreja mais sinodal, mais de escutar a todos.

 

E a conseguir sarar as feridas recentes?

Certo, mas eu acho que também se fez muito, que a Igreja de Portugal assumiu com muita valentia olhar para a própria realidade. Não estava obrigada pela lei, mas fê-lo voluntariamente. Isso é que muitas vezes se esquece. É uma ferida, é uma dor que temos de assumir, porque é a nossa história. Porém, assumindo-a, vamos em frente com o Evangelho na mão; não temos nada que negar.

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Parece-lhe que as pessoas compreendem qual é a sua função e a missão de que está investido?

Não toda a gente.

 

Podemos aproveitar esta oportunidade para, de uma forma sintética, explicar o que é que lhe compete fazer em Portugal?

O núncio é uma ponte. É uma ponte entre o Papa como chefe de Estado e um Estado que é o Estado Português. É uma ponte entre o Papa como chefe da Igreja Universal e a Igreja Portuguesa. Então, quando é que uma ponte é importante? Quando a ponte não é protagonista; quando se passa na ponte. Quando a ponte quer ser protagonista, está mal. Eu não tento ser protagonista. Quero somente ser uma ponte entre as autoridades de Estado, não somente do Governo, mas de todo o Estado Português e da Santa Sé, entre o Papa e a Igreja, em Portugal.

 

Portanto, é uma ponte entre aquilo que o Papa Leão XIV está a querer construir para a Igreja a nível mundial e aquilo que se passa aqui neste país?

Sim.

 

E o que é que o Santo Padre está a tentar construir para a Igreja neste momento?

Eu conheço muito bem o Papa Leão, porque fomos colegas de estudos, durante quatro anos. Conheço as suas capacidades, a sua profundidade, serenidade e o seu equilíbrio. Vai colocar em prática as grandes intuições do Papa Francisco, de uma Igreja que seja sinodal, pois tem uma enorme capacidade de escutar, sempre teve. Fui seu colega há 45 anos.

 

É o mesmo homem desde essa altura?

Eu gosto muito de ver o mesmo homem. De 1981 a 1985 fizemos a licenciatura e o doutoramento na Pontifícia Universidade de São Tomás de Aquino. O Santo Padre vai colocar em prática essas grandes intuições, por exemplo, a de uma Igreja sinodal. Este Papa escuta, escuta, escuta e só depois decide. Está a levar a Igreja a uma maneira de fazer, de trabalhar que nos custa a todos, aos bispos, aos padres e aos leigos. Por vezes, na paróquia, diz-se ao pároco: “o senhor é que sabe, o senhor decida, nós fazemos”. É muito mais cómodo, não é? Essa cultura não é sempre dos bispos ou dos padres, às vezes é dos leigos que não querem assumir as próprias responsabilidades.

 

Que vantagens tem esse perfil do Papa, esse caráter mais sereno, num mundo onde temos um Donald Trump e guerras permanentes?

Não sei quantas entrevistas eu já dei. Mas eu dizia sempre à imprensa: “não estão a escutar o Papa, porque o Papa não grita”. Como não grita, não estava a ser escutado. Mas escreveu a encíclica Magnifica Humanitas num momento que coincidiu com os ataques de Donald Trump e dos Estados Unidos contra ele; e o sistema viu que ele estava a dizer coisas interessantes e começaram a escutar. Afinal, foi providencial. Os ataques serviram para que as pessoas escutassem aquilo que não estavam a escutar, porque o Papa não grita, mas a encíclica foi como um grito no sentido de dizer: “olhem, existem problemáticas a nível da humanidade que não estamos a querer enfrentar”.

 

Portanto, acaba por ser um perfil muito útil e acertado para os tempos que vivemos?

Obviamente. Acho que o Espírito Santo não é estúpido. Em cada momento faz eleger a pessoa que o mundo, não apenas a Igreja, precisa. E para mim a experiência do último conclave foi uma experiência muito, muito forte. Eu sou amigo de 20, 25 cardeais que estavam lá dentro e todos eles me dizem: foi uma experiência do Espírito Santo. Pessoas que se conheciam muito pouco, mas que, em 24 horas, elegeram com mais de 2/3 um novo Papa. Isso não acontece normalmente!

 

Em termos concretos, que lugar ocupa a paz na ação diplomática da Santa Sé?

A primeira coisa que o Papa Leão disse na varanda foi “a paz esteja convosco”, como Cristo ressuscitado falou. Aí começou a dizer “a paz desarmada e desarmante” que vai contra todas as ideias de uma paz imposta pela força, que é aquilo que o mundo tenta fazer. Este Papa continua a dizer que uma paz imposta não dura. Consegue-se no momento, mas depois a realidade, como dizia o Papa Francisco, é mais forte do que a ideia. E, afinal, quando as coisas não são justas, não duram, não podem durar. Então, a paz está no centro. Obviamente, nós “vendemos uma mercadoria” que o mundo não quer comprar. Não estamos a vender coisas fáceis, estamos a oferecer uma maneira de se comportar que é diferente das normais relações de poder neste mundo. Isso não é fácil. Esta é uma ação de corpo, não é de um ou de outro. Porém, eu sei quanto é difícil, às vezes, propor coisas que não são aquelas que as populações mais facilmente aceitam.

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O senhor núncio é conhecido por ser uma pessoa próxima, simples e de gostar de contactar com as pessoas. Gosta e tem facilidade. Em oposição, vemos na Igreja grupos, incluindo sacerdotes jovens, a recuperar atitudes demasiado formais e distantes da vida das comunidades. Na sua opinião, que aspetos são importantes na forma de os agentes pastorais irem ao encontro das pessoas?

Eu acho que é um sintoma de que as pessoas não se sentem seguras. Então, a segurança é voltar ao passado. O mundo não para. Como é que se diz? “Parem o comboio, que quero sair”. É preciso um tipo de pastor, como dizia o Papa Francisco, que seja pastor em saída, que não fique fechado em si mesmo, que saia, que vá ao encontro, que escute, que esteja próximo das pessoas. O que fazia Nosso Senhor Jesus Cristo? Saía, encontrava até pecadores públicos para grande escândalo dos fariseus. Hoje, seria um escândalo! Acho que temos este reflexo; às vezes, quando sentimos insegurança, temos a tentação de voltar para trás. Nunca é a solução.

 

Também na conferência de imprensa da Peregrinação de Agosto foi muito claro em relação ao facto de os cristãos e, muito concretamente, os portugueses não poderem ser xenófobos, não terem o direito de ser xenófobos. Como é que isso se combate?

Eu estou a falar com o Evangelho na mão. Eu não sou um político, eu sou um pastor da Igreja. Estou a dizer muito claramente que um país tem direito a estudar qual é a sua capacidade de acolhimento. Se Portugal tem 12 milhões de pessoas, não podemos aceitar mil milhões. Temos de ver qual é a real capacidade. O problema é quando falta o diálogo para ver estas coisas de uma maneira que vá além das posições políticas, quando tentam resolver problemas complexos com soluções simples. Essas soluções simples só ajudam os populismos de um lado e de outro, os extremos. Essa não é a posição da Igreja. Estudemos qual é a capacidade real, mas depois consideremos o Evangelho. Eu não posso passar por cima do Evangelho: “fui forasteiro e me acolheste ou não me acolheste”. Devo, como pastor da Igreja, dizer isto claramente, porque o exame final está em Mateus 25. Basta ler, porque aí será alegria eterna ou condenação eterna. Tenho o dever, como pastor, de estar atento.

 

Não é uma questão política?

Se o Evangelho está na mão, não. Estou a receber críticas, porque falei o que falei na conferência de imprensa e porque fiz a pregação que fiz. “O núncio está a meter-se na política”. Eu estou a dizer o que o Evangelho diz: “fui forasteiro e me acolheste ou não me acolheste”. Aí está ou a felicidade eterna ou a condenação eterna. Ponto. Cada um que veja o que quer dizer a Nosso Senhor.

 

É muito ativo nas redes sociais, está muito atento. Que peso têm as redes sociais na propagação dessas ideias?

Eu odiava essas coisas. Então, um dia saiu a mensagem do Papa Bento XVI para o Dia Mundial das Comunicações Sociais sobre o tema das redes sociais como novos espaços de evangelização. Eu torci o nariz. Será? Eu era núncio no Panamá. Aí, uns padres novos pediram-me: “o senhor por acaso não celebraria uma missa para nós e não nos explicaria o conteúdo da mensagem do Papa?”. Que peça ao representante do Papa para explicar o que o Papa está a dizer, nada mais normal. Expliquei, mas no final disse aos padres para não perderem tempo com estas coisas e dedicarem mais tempo à atenção às pessoas. Mas voltei para casa e tive um grande escrúpulo: “quem és tu para falares uma coisa contrária àquilo que o Papa está a falar?”. Então, entrei no Twitter, criei uma conta, entrei no Facebook e abri uma conta, entrei no Instagram e fiz uma conta. Passaram três ou quatro meses e eu não tinha voltado a entrar lá. Entrei no Twitter: tinha zero mensagens, não tinha enviado nenhuma mensagem e não estava a seguir ninguém; tinha 300 seguidores. Então, perguntei ao meu secretário, um jovem: “o que é isto?”. “O que o senhor colocar vai chegar a 300 pessoas”, respondeu-me. A 300 pessoas? Estou a fazer pregação todos os dias na missa para quatro. Comecei a publicar. Hoje são 70 mil. Eu tenho de dar de comer àquelas 70 mil pessoas; então, vou partilhando aquilo que vivo.

 

Parece-lhe que a Igreja está a fazer bom uso das redes sociais?

Não somos especialistas, obviamente, porque, por vezes, só falamos aos que já estão convencidos.

 

O que quer dizer exatamente?

Só colocamos mensagens para pessoas que já estão lá dentro. Eu acho que temos de ser um pouco mais universais. Se eu coloco uma mensagem de conteúdo cristão, 100% cristão, ao lado, coloco um conteúdo 100% humanista, não tem que ver com fé, temos de ter essa abertura. Temos de tentar entrar em contacto com os que não têm fé cristã. Mas, como seres humanos, podemos falar de coisas que são comuns. Pode ser que, depois, eles se interessem por essa mensagem e vão olhar as outras que são cristãs.

 

Mas gosta?

Gosto. Digo a verdade: não é simples. Quando chegou a pandemia, vi que havia tanto, tanto sofrimento neste mundo, que comecei a colocar algumas coisas de humor. Lembro-me de, um dia, uma senhora me ter escrito: “o meu pai morreu, não conseguimos fazer o velório, nem nos deixaram ir ao enterro, estamos todos quebrados, mas hoje o senhor arrancou-me um sorriso”. Achei que isso era uma obra de caridade e continuei a fazê-lo. Algumas vezes, coloco humor que não faz mal a ninguém e pode relaxar um pouco.

 

Disse na Peregrinação de Agosto que a Igreja deseja ser casa para todos. O que falta à Igreja para ser efetivamente casa para todos?

Viver o Evangelho. É o Evangelho que nos leva lá. É Maria que nos leva lá, é a mãe de todos. Quando não somos acolhedores com pessoas que podem ser de cor diferente, de países diferentes, eu digo: “Nosso Senhor não faria isso, Maria não faria isso”. Maria e José foram migrantes com Jesus no Egito. Se não tivessem sido acolhidos no Egito, Jesus não viveria. Então, para mim é muito forte. Maria foi emigrante, José foi emigrante, Jesus menino foi emigrante; não podemos excluir ninguém. Vejo tantas pessoas que vêm de muitos lugares do mundo e que nas nossas paróquias são um ponto positivo, são pessoas com fé forte. Eu vivi na Suíça, no Canadá e, no contacto com os portugueses migrantes, vi quantos sofreram também xenofobia. Quer dizer, xenofobia significa que todo o mundo é mau. Isso não é cristão. Volto a dizer que o país deve ver qual é a sua capacidade de acolhimento. xenofobia é outra coisa, é dizer: “todo o mundo é mau”.

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Por isso dizia, também na conferência de imprensa, que a questão de Ceuta não é uma questão migratória?

Ceuta é muito mais complexa, é outra coisa. Não é uma questão migratória, é de outro tipo e toca a geopolítica internacional e até nacional. Não quero entrar nisso.

 

Voltemos a Fátima, que está com frequência na sua agenda.

Continuamente. Em seis meses, acho que vim aqui 15 vezes.

 

Existe um gosto especial por este lugar?

Na primeira entrevista que me fizeram, estava ainda em Quito, no Equador, eu disse “Portugal é Fátima”.

 

O que é que isso significa exatamente?

Este é o coração da Igreja deste país. Eu vi tantas famílias que levaram uma imagem de Nossa Senhora na mala e que os ajudou nos momentos de maior sofrimento.

 

Lá fora, quando esteve nesses países?

Ah, claro. Na Suíça, no Canadá. Então, isso faz-me ter um enorme respeito. Assim, percebemos que nesses momentos de cruz, de dor, Maria é mãe. Maria ajuda-nos a irmos em frente. E, para mim, isso tem muita admiração, muito respeito.

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Como é que observa Fátima agora que presidiu a uma Peregrinação Internacional Aniversária? O que significa para um representante da Santa Sé presidir a uma peregrinação destas?

Eu falei com D. José [Ornelas] e não sabe o quanto eu agradeço ele ter tido este gesto com o representante do Papa. Ele convidou-me, estava eu em Portugal somente há dois meses. Achei uma honra enorme e acho que, como falou o senhor reitor, este Santuário tem um relacionamento único com os Papas. Este Santuário é um lugar que tem uma mística única, aqui percebe-se a fé das pessoas mais simples, as pessoas menos complicadas, daqueles que são os preferidos do Senhor. Isso percebe-se neste lugar.

 

Como é que vê o papel e a função do lugar de Fátima, hoje, na Igreja e no mundo?

Acho que está a ter um papel importante, porque hoje tínhamos [na peregrinação], por exemplo, um bispo da Alemanha, ontem à noite, um bispo da Costa de Marfim. É uma devoção internacional que tem chegado aos lugares mais impensáveis. Então, o facto de ser uma organização séria, com capelães de diferentes línguas para dar atenção aos peregrinos em diferentes línguas, acho que está a fazer um trabalho muito sério e que é importante. Eu admiro bastante toda esta organização. Não seria capaz de dizer “tem de mudar isto ou aquilo”. Entre os santuários internacionais que conheço, devo dizer que o Santuário de Fátima é um daqueles que eu conheço mais de perto: quando cá venho, estou com os padres, estou com os bispos e vejo como se está a dar uma atenção genuína às pessoas que vêm de fora.

 

A Conferência Episcopal enviou um convite ao Papa Leão XIV para vir a Portugal. Não nos pode dizer nada sobre isso, ainda?

A anterior presidência da Conferência Episcopal mandou convite, a presidência atual mandou convite, o Presidente da República anterior mandou convite, o Presidente atual mandou convite. Eu mesmo conversei com ele. São os 500 anos da Nunciatura e vão ser os 110 anos das aparições. Ele já falou publicamente a palavra “Fátima”, mas a agenda da Santa Sé é muito complexa. Não responde a coisas simplisticamente. Então, não sei quando, mas que ele vai vir, vai vir. Tranquilo.

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