16 de setembro, 2026
Os rostos de quem acolhe no Santuário de FátimaOs voluntários do Santuário de Fátima acolhem diariamente milhares de peregrinos. No dia 4 de agosto, durante o passeio anual de voluntários, foram eles a sentirem-se acolhidos.Eram 7h30 da manhã. O relógio da Torre da Basílica de Nossa Senhora do Rosário acabava de marcar a hora quando, junto à livraria do Santuário de Fátima, três autocarros começaram a encher-se de vozes, cumprimentos e sorrisos. Mais de uma centena de voluntários preparava-se para partir rumo a Aveiro. Por um dia, deixariam para trás os lugares onde habitualmente recebem os peregrinos para ocuparem o lugar de quem é recebido. “Uma missão invertida”O passeio dos voluntários realiza-se anualmente e, Cláudia Camelo, coordenadora da Comissão para o Voluntariado, revelou que este encontro é mais do que um momento de lazer: “É uma forma de agradecer aos voluntários do Santuário de Fátima pelo serviço e dedicação diária e funciona como uma ‘missão invertida’”. “Durante o ano, são os voluntários que acolhem quem chega à Cova da Iria. São eles que recebem, orientam, escutam, acompanham e ajudam. Neste dia, porém, são eles os acolhidos”, explicou. “O passeio transforma-se num gesto de reconhecimento. É uma oportunidade para parar, conversar e conhecer melhor aqueles com quem se partilham corredores, celebrações e momentos de serviço”, concluiu a responsável.
O encontro entre a oração, a cultura e o convívioNo interior dos três autocarros, o dia iniciou com a oração de Laudes. Assim que chegaram ao primeiro destino, o padre Francisco Pereira, capelão do Santuário de Fátima, dinamizou uma breve visita guiada à Igreja das Carmelitas, também conhecida como Convento de São João Evangelista que remonta ao início do século XVII. Seguiram a pé até à Sé de Aveiro para celebrar a missa às 11h45, presidida pelo reitor do Santuário, padre Carlos Cabecinhas.Na homilia, focada nas “tempestades” da vida e na necessidade de confiança em Deus, o padre Carlos Cabecinhas recordou que os voluntários são o “primeiro rosto” do Santuário e que, mesmo enfrentando dificuldades pessoais, são convidados a acolher com um sorriso, sendo a “transparência da misericórdia de Deus”. Durante a tarde, o grupo realizou uma visita acompanhada ao Museu e Capela da Vista Alegre. Esta paragem permitiu conhecer a evolução estética da produção de porcelana e a sua relevância na sociedade portuguesa dos séculos XIX e XX, testemunhando a riqueza histórica e artística desta marca portuguesa.
Quatro histórias, uma mesma missãoEntre conversas e risadas, quatro participantes de diferentes idades e percursos de vida, contaram ao jornal Voz da Fátima, o que os trouxe até ao voluntariado no Santuário, para além da vontade de servir. Com 18 anos, Mariana Galeão é um dos rostos de uma geração que cresceu dentro do voluntariado. Integra a Schola Cantorum, coro do Santuário, desde os 4 anos: “Cantar é uma forma de acompanhar os peregrinos no final do seu caminho e contribuir para que regressem a casa com uma experiência de realização”. Se tivesse de descrever o voluntariado numa só palavra, escolheria “alegria”. Aos 59 anos, Paulo Nunes chegou ao mundo do serviço a partir de um percurso profissional e académico diferente. Gestor ferroviário, com formação em Teologia, encontrou na Liturgia e no serviço como ministro extraordinário da comunhão uma forma de viver a fé: “Para mim, o voluntariado é uma graça, mas também uma chamada que implica humildade e formação permanente”, partilhou. A história de Bernardino Santos começou noutro contexto. Depois de 36 anos na Força Aérea, chegou à reforma e encontrou no Santuário uma nova forma de servir: “Viajo de Lisboa até Fátima para acolher peregrinos. O primeiro grande desafio surgiu durante a pandemia, quando o voluntariado assumiu contornos particularmente exigentes”. Hoje, resume o serviço numa palavra: amor. Também Rosa Rodrigues, de 60 anos, encontrou no voluntariado uma oportunidade de recomeço. Esteticista de profissão, decidiu inscrever-se no ano passado como voluntária: “No acolhimento e nas exposições, descobri que, muitas vezes, aquilo que os peregrinos procuram não é apenas uma informação ou uma orientação; procuram alguém que os escute, um sorriso, um gesto de proximidade, um aconchego”, contou. “Recebe-se muito mais do que se dá”, concluiu.
Mariana Galeão, Paulo Nunes, Bernardino Santos e Rosa Rodrigues participaram no passeio dos Voluntários.
Servir em muitas frentesOs rostos neste passeio revelam apenas uma parte da múltipla e diversa realidade do Santuário de Fátima. Embora as tarefas sejam distintas, desde a Liturgia ao acolhimento direto no recinto, todas convergem numa missão única: acolher. É precisamente esta diversidade, que une gerações e percursos tão distintos, que faz do voluntariado uma realidade na Cova da Iria. Para Paulo Nunes, momentos como este são vitais para “fazer grupo”, permitindo que voluntários tenham a oportunidade de se conhecerem. Como sublinhou também a voluntária Rosa Rodrigues, “o passeio funcionou como um espaço de confraternização onde foi possível descobrir quem está por detrás de cada voz ou tarefa”. Este dia marcou o que Cláudia Camelo define como uma “missão invertida” — o Santuário abraçou aqueles que dão o seu tempo à casa de Nossa Senhora de Fátima. Pelas 21h00, com o regresso dos autocarros a Fátima, a inversão de papéis acabou. No dia seguinte, cada um retomaria o seu local de voluntariado — nas celebrações, nos balcões de informações ou no recinto de oração. Voltariam a ser aquilo que o padre Carlos Cabecinhas recordou “o primeiro rosto do Santuário” perante cada peregrino. O passeio tinha terminado. A missão, porém, continua.
Como ser voluntário do Santuário
Ser voluntário externoSe faz parte de um grupo ou instituição parceira, o Santuário também promove o voluntariado em articulação com forças externas:
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