10 de julho, 2022

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20 quilos de roupa (ou o peso da minha consciência ecológica)

Por Pedro Valinho Gomes

 

Quem quer conhecer o impacto ecológico do seu estilo de vida, experimente mudar de casa. Fazer as malas é um exercício imprevisível de autoconsciência ecológica. É, pelo menos, o que a minha experiência recente me diz. Nunca pensei que dos armários de uma família de cinco pudessem sair tantos quilos de roupa, quantos deles já inutilizáveis ou simplesmente esquecidos por detrás de uma camisola mais a uso. Voltei finalmente a ver roupa que não via há já muito tempo para simplesmente dever reconhecer que nunca cheguei a precisar dela ou que, sem necessidade, a troquei por outra. A vergonha impede-me de revelar o número de sacos cheios que saíram, uns para o lixo, outros para dar. Mas bato com a mão no peito percebendo o quanto acumulo desnecessariamente, porque a moda ou a etiqueta ou as expectativas ou um certo sentido (ditatorial) de aceitação social ou simplesmente o meu egoísmo possessivo assim o dita. Li recentemente que, só em Portugal, cerca de 200 toneladas de roupa eram triadas anualmente nos resíduos. As contas são simples de fazer: são 20 quilos de roupa por português por ano a fazer caminho para as nossas lixeiras. Estranhamente esta solidariedade no pecado não me traz consolo, mas angústia.

Creio que há, ainda assim, uma forma especificamente cristã de pensar a ecologia, que não é ditada pela angústia ou marcada por um certo sentido de urgência apocalíptica, mas antes pelo sentido do outro, pelo “sentir o outro” que o testemunho evangélico implica. Cuidar da criação não é apenas nem acima de tudo a necessidade inevitável que uma catástrofe ambiental iminente impõe, mas a consequência irrepressível do estilo cristão. Isso implica duas coisas: em primeiro lugar, reconhecer-se como criação. Talvez importe aceitar que não tocamos o fundo da questão quando falamos de “crise ambiental”. Somos traídos pela própria linguagem que utilizamos. A expressão “crise ambiental” parece sugerir algo de exterior ao humano (quem está em crise não sou eu, é o ambiente!) acerca do qual o humano tem o dever ético de encontrar uma solução, como o técnico que do exterior examine um motor avariado e o repara. Esta compreensão tende a esquecer que não se pode abstrair o humano da criação, que o cuidado ecológico não é algo oferecido do lugar de um observador neutro a um ser estranho e que é a forma humana de habitar o mundo que está verdadeiramente em crise. O Papa Francisco insiste nisto na sua encíclica Laudato Si: tudo está interligado.

Por outro lado, cuidar da criação é, para o cristão, primordialmente uma atitude de testemunho. Trata-se de testemunhar a ressurreição, de viver como quem anuncia a presença de Cristo vivo. O mandato do Cristo é claro: os discípulos são chamados a proclamar o evangelho a todas as criaturas (Mc 16,15-18). Nunca avaliaremos com justeza suficiente a mudança de paradigma traçada entre o mandato de dominar a terra da narrativa da criação do livro do Génesis (Gn 1,28-31) e o imperativo evangélico do testemunho a todas as criaturas. Mas sei que acumular roupa desnecessária no armário é da ordem do domínio da terra e não do testemunho alegre e fraterno da ressurreição a toda a criação. Talvez deva fazer as malas mais frequentemente. Desconfio de que é esta a razão de o Mestre recomendar aos discípulos que não levem bolsa, alforge ou sandálias.

 

 

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