20 de janeiro, 2026

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Do anonimato ao silêncio, a jornada espiritual e humana de Lúcia de Jesus

Após as aparições de 1917, a vida das três crianças de Fátima sofreu profundas transformações. A partir da exposição “Refúgio e Caminho”, recuperamos o espaço e o tempo de Lúcia até cumprir 40 anos.

 

Ainda não entrámos e já Lúcia nos prende o olhar. Meticulosamente medido e pensado, o painel que dá as boas-vindas ao visitante da exposição temporária “Refúgio e Caminho” deixa que através dele, se aviste a figura da Irmã Lúcia. Uma fresta corta de alto a baixo os dois elementos que sintetizam o tema desta exposição comemorativa do centenário das aparições de Pontevedra: o coração de Maria e a coroa de espinhos que o cerca. É através dessa abertura que se entrevê uma fotografia de Lúcia, muito jovem, no período que viveu na Galiza, enquanto religiosa do Instituto das Irmãs de Santa Doroteia.

Esta imagem que é oferecida ao visitante assim que entra na exposição não é impensada. É um convite. Lúcia oferece-se como guia do percurso, lembrando-nos que esse tem sido o seu papel desde que lhe foi dito, pela Mãe de Deus, que a sua vida se prolongaria por “mais algum tempo”. Contrariamente aos seus primos Francisco e Jacinta, sobreviveria à pandemia e às dificuldades da época para assumir a missão de se tornar apóstola do Imaculado Coração de Maria.

À medida que se avança e se transpõe a primeira etapa da exposição, a figura da jovem torna-se mais nítida. O segundo núcleo exibe aquele que foi o seu primeiro hábito de religiosa. Esta não é a Lúcia das últimas décadas de vida, a mais fotografada e difundida, daí que também não seja a mais conhecida.

Revestem-se, por isso, de especial interesse e curiosidade os objetos pessoais expostos em “Refúgio e Caminho”. À guarda do Museu do Santuário de Fátima, são peças que nunca estiveram sob o olhar público, desde logo o hábito de doroteia que inclui veste, avental, touca, véu de casa, xaile e terço e também os fios de linho, dedal, botão de chambre, agulha e novelo são objetos inéditos que transportam o visitante para o quotidiano da religiosa.

Contudo, é o conjunto de miniaturas, visível nessa ala da exposição, que mais surpreende o visitante. Vários paramentos, um altar e as respetivas alfaias, que Lúcia criou em miniatura, revelam o equilíbrio que mantinha entre a vida doméstica e a sua devoção religiosa. A criação destas peças denota uma jovem profundamente empenhada nos lavores artesanais. O trabalho de criar réplicas em miniatura de objetos litúrgicos complexos reflete uma personalidade paciente, minuciosa e uma mulher dotada de enorme habilidade manual.

Lúcia encontrava satisfação e propósito na vida simples e disciplinada do convento. Cumpria as atividades domésticas, interagia e brincava com as restantes irmãs sem perder a capacidade de se focar em tarefas que exigiam recolhimento e concentração. A escrita é disso reflexo. Enquanto doroteia, escreveu documentos fundamentais para a história e para a mensagem de Fátima, de que são exemplo as suas quatro Memórias e a terceira parte do Segredo.

Na exposição, podem ser vistas duas canetas que usou na atividade de redação e, já no terceiro núcleo, encontra-se exposto o seu relato sobre as visões de Nossa Senhora e do Menino Jesus que testemunhou em Pontevedra.

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Os trabalhos manuais e a escrita revelam que a personalidade de Lúcia não era compartimentada. Não havia uma separação entre a “Lúcia artesã”, a “Lúcia escritora” e a “Lúcia religiosa”. Ao dedicar o seu tempo à construção de objetos litúrgicos e à escrita do que até então tinha visto e vivido, ela mostrava que as questões religiosas ocupavam a todo o instante o centro da sua atenção. Tudo era instrumento em prol do sagrado, a começar por ela.

 

De Fátima para o Porto

A exposição “Refúgio e Caminho” faz memória das aparições de Pontevedra, na Galiza, ocorridas em 1925 e 1926. Constitui uma oportunidade para dar a conhecer o terceiro ciclo das aparições de Fátima, designado cordimariano, pelas mensagens referentes ao Imaculado Coração de Maria.

Esta iniciativa do Santuário de Fátima é, igualmente, uma ocasião preciosa para se conhecer o percurso de Lúcia de Jesus e entender a personalidade da mulher que marcou de forma indelével a vida da Igreja no século XX.

À generalidade dos visitantes será desconhecido o rumo que a mais velha das três crianças de Fátima tomou após as aparições da Cova da Iria. E, confrontados com um ciclo de aparições em terras galegas, haverá perguntas que necessariamente se impõem aos que visitam a exposição: “o que estava Lúcia a fazer em Espanha? Quem decidiu que esse seria o seu destino? Como viveu esse período?”.

Após as aparições de 1917, Lúcia não tinha como escapar ao rótulo de “vidente” e aos riscos que isso comportava. Era necessário definir o seu futuro e investir na sua educação. Impunha-se afastá-la do estatuto de milagreira e de um contexto propício à idolatria e à perseguição que nada de bom lhe poderia trazer. Essa foi a preocupação de D. José Alves Correia da Silva, primeiro bispo de Leiria após a restauração da Diocese.

Também a vida da família de Lúcia tinha sofrido uma profunda transformação com o acontecimento de Fátima e deparava-se com sérias dificuldades. A Cova da Iria era propriedade dos pais e aí se cultivavam bastante milho e hortaliças. No entanto, desde que o lugar começou a ser procurado por peregrinos, não mais a família o pôde cultivar. O terreno pertencia agora ao povo de Deus. “As gentes tudo pisavam; grande parte ia a cavalo e os animais acabavam de comer e estragar tudo”, escreveu Lúcia nas suas Memórias. Lembrando que sua mãe, Maria Rosa, sempre se manifestou descrente das aparições da Virgem Maria, recorda o que esta lhe dizia perante tão grande perda: “Tu, agora, quando quiseres comer, vais pedi-lo a essa Senhora!”.

A par desta dificuldade, a casa da família de Lúcia, assim como a de Francisco e Jacinta, transformara-se em lugar de romaria, desde as primeiras aparições. Queixava-se então Maria Rosa: “como vou conseguir que essa gente que para aí vem, se resigne a ir-se embora sem ter visto e falado com a pequena? Metem-se-me aí em casa e daí não saem sem ela vir! Isto é fácil de dizer, mas de conseguir é muito difícil. Deus me ajude que não sei que voltas hei de dar à vida!”.

A 17 de junho de 1921, então com 14 anos, Lúcia integra, como aluna, a comunidade educativa das Irmãs Doroteias, no Vilar, cidade do Porto. Este afastamento da família e dos lugares que conhecia causou-lhe uma enorme tristeza que descrevia desta forma: “parecia-me um enterrar-me viva numa sepultura”. Tinha concordado com a decisão do bispo de Leiria, mas o sacrifício de deixar tudo e todos parecia-lhe incomportável.

Para trás ficou também a sua identidade. De forma que ninguém suspeitasse de quem se tratava, no Asilo de Vilar perdeu o nome de Lúcia e recebeu o de Maria das Dores, com a indicação de que nada revelasse sobre as suas origens.

Lúcia viveu e sofreu em silêncio a adaptação a esta nova vida. Oferecia a Deus o sacrifício, a renúncia e a sua total entrega. Estudante aplicada e com boas notas, viu-se impedida de fazer o exame da quarta classe pois não era possível submeter-se à prova sem apresentar um documento de identidade. O anonimato a que estava sujeita perder-se-ia. Na biografia Um Caminho sob o Olhar de Maria, é referido que Lúcia “abraça generosamente mais este sacrifício, mas o espinho será sentido por toda a vida”.

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Do Porto para a Galiza

No Porto, Lúcia confirmou o desejo de se consagrar a Deus e seguir a vida religiosa. Não seria uma opção simples. A implantação da República, em 1910, tinha determinado a extinção das ordens religiosas. As irmãs do Instituto de Santa Doroteia mantiveram o Asilo de Vilar disfarçadas de “senhoras” que apenas se ocupavam da educação de meninas. Já as ordens contemplativas, como as irmãs do Carmelo, tinham sido expulsas do território português.

Esta era a ordem que exercia sobre Lúcia especial atração. Décadas depois, em 1948, para aí viria a transitar, mas na juventude a ingressão no Carmelo foi-lhe negada com o argumento de que não seria prudente devido à sua saúde débil.

A 25 de outubro de 1925, Lúcia entra no Instituto das Irmãs de Santa Doroteia, em Pontevedra, como postulante, a etapa de preparação que antecede o noviciado. Uma vez mais, ruma em direção ao desconhecido. Sofre com as saudades das amigas que fez no Porto e da mãe, agora mais distante. “Cada vez o Senhor pedia mais solidão ao seu coração”, refere a mesma biografia, mas Lúcia sabia-se protegida com a promessa que Nossa Senhora lhe tinha feito, na aparição de junho de 1917: “não desanimes. Eu nunca te deixarei. O meu Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho que te conduzirá até Deus”.

Contrariamente ao que lhe tinha sido prometido, Lúcia não pôde prosseguir a formação escolar, em Pontevedra. Viu-se colocada entre as irmãs coadjutoras, a quem não era permitido estudar, por se entender que nesta categoria, Lúcia, “escondida sob o nome de Maria das Dores, poderia viver melhor a sua vida religiosa”. Ela, por sua vez, recorda: “moralmente, sofria um verdadeiro martírio, mas procurei sempre que, externamente, ele não transparecesse”.

É em Pontevedra que Lúcia, em 1925 e 1926, testemunha novas aparições, não só da Mãe de Deus, como também de Jesus ainda menino. O Coração Imaculado de Maria que lhe é dado a ver está cravado de espinhos, símbolo dos pecados dos homens. Ao visitar Lúcia novamente, a Virgem Maria lança um novo convite à conversão, propondo desta vez a devoção dos primeiros sábados.

É o seu confessor, o padre jesuíta Aparício, que lhe pede que escreva tudo o que viu e ouviu. Lúcia, em total obediência, entrega-se à escrita, atividade que, daí em diante, intercalará com as lides domésticas e os lavores manuais.

A 20 de julho de 1926, chega a Tuy, para completar o postulantado. A 2 de outubro desse mesmo ano começa o seu noviciado, com a tomada de hábito, e a 3 de outubro de 1928 professa os primeiros votos religiosos. A Portugal regressará apenas em 1946.

 

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“Pedra escondida nos alicerces”

No percurso que fez até Pontevedra e durante as duas décadas que permaneceu na Galiza, há traços da personalidade de Lúcia que se acentuam e sobre os quais a exposição “Refúgio e Caminho” convida a refletir.

Enquanto irmã doroteia, era uma síntese perfeita entre a simplicidade das tarefas domésticas e a profundidade da sua missão espiritual. Dona de uma força interior inabalável, que combina com uma profunda humildade, torna-se uma figura fascinante. Mostrou-se capaz de viver em total obediência aos seus superiores e em fidelidade ao “sim” que proferiu a 13 de maio de 1917.

Lúcia personificava o carisma das Doroteias de “olhar apenas para Deus” sem cuidar dos próprios interesses. O desejo de transitar para o Carmelo, que concretizou no final da década de 40, era justificado pela procura de uma “vida mais sossegada”, na medida em que privilegiava o silêncio e a contemplação em detrimento da exposição pública que uma congregação de vida ativa como as Doroteias, por vezes, trazia.

Viveu e agiu de forma a levar ao mundo a boa notícia de que a paz no mundo é possível, que esse é o desejo de Deus para a humanidade e no qual todos são chamados a colaborar. Porém, sempre foi seu desejo ser uma “pedra escondida nos alicerces”, evitando o protagonismo e o brilho pessoal para que apenas a mensagem de Fátima sobressaísse. Assim foi, por caminhos que nunca lhe pareceram óbvios, mas confiando plenamente em quem a conduzia. “Deus faz tudo bem feito e conduz os nossos passos sempre pelo caminho melhor”, afirmava.

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