03 de julho, 2026

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“Em tempos de inteligência artificial, Fátima propõe uma inteligência do coração”

Interpretar e entender o mundo à luz de uma “inteligência cordial” foi a proposta da edição deste ano dos Cursos de Verão, organizados pela Academia de Estudos do Santuário de Fátima. A iniciativa juntou cerca de uma dezena de investigadores e mais de uma centena de participantes.

 

O mote lançado na sessão de abertura dos Cursos de Verão dissipou as interrogações que o tema da edição deste ano pudesse ter gerado. Afinal, do que se fala quando o diálogo se desenrola em torno desta invulgar palavra: “cordimariano”?

A abrir os Cursos de Verão, que se realizaram entre 1 e 3 de julho, com o tema “Fátima depois de outubro de 1917: o ciclo cordimariano”, Marco Daniel Duarte, diretor da Academia de Estudos do Santuário e coordenador da formação, colocou Fátima em diálogo direto com o presente.

“Em tempos de inteligência artificial, Fátima propõe uma inteligência cordial”, uma forma de ler o mundo que não parte apenas da razão, mas do coração. É essa “inteligência que vem do coração” que, este ano, atravessou o programa do Curso e ajudou a compreender por que razão o episódio de Fátima não se esgota nos acontecimentos de 1917, prolongando-se em ciclos sucessivos com impacto nos dias de hoje.

Marco Daniel Duarte recordou que esta ideia de “inteligência cordial” encontra reflexo nas palavras recentes do Papa Leão XIV, cuja primeira encíclica repete por dezenas de vezes a palavra “coração”. Em particular, preocupa o Santo Padre que o crescimento da técnica leve a humanidade a perder a sua beleza e que o mundo deixe de reconhecer no coração humano “o lugar onde Deus deseja habitar”. Citando o Papa Leão XIV, o diretor da Academia de Estudos reiterou que também Fátima propõe essa inteligência que nasce da afetividade e não apenas da razão.

Esta linha de pensamento foi particularmente aprofundada pelo investigador José Eduardo Franco, da Universidade Aberta, ao trazer aos Cursos de Verão o tema “Espiritualidades quentes num mundo frio: os corações de Jesus e de Maria”. 

 

Uma “geografia da espiritualidade”

José Eduardo Franco defende que existem, ao longo da história do Cristianismo, duas correntes de espiritualidade: frias, racionalistas e distanciadoras entre o Homem e Deus e, em contraste, as quentes, afetivas e centradas na proximidade e na misericórdia divinas.

É nesta segunda família que se inserem o que designa de “espiritualidades sinedocais”, na medida em que tomam uma parte pelo todo, ou seja, uma parte do corpo de Cristo para significar o todo do mistério cristão. É aqui que o historiador enquadra a devoção aos Sagrados Corações de Jesus e de Maria e, por extensão, à própria mensagem de Fátima.

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Segundo José Eduardo Franco, esta espiritualidade “cordial” nasceu por oposição às correntes mais racionalistas e severas que emergiram a partir do Renascimento e da Reforma. O Calvinismo e o Jansenismo colocavam Deus numa posição distante e viam a religião através de um prisma de rigor moral e desconfiança face às emoções. Contra esse pano de fundo, autores como Santo Agostinho, Santo Inácio de Loyola, São João Eudes, entre outros, foram, ao longo dos séculos, desenvolvendo uma teologia do coração como símbolo do amor, da interioridade e do encontro entre o Homem e Deus.

O historiador percorreu os marcos históricos que conduziram ao século XIX, “século do coração de Jesus”, como classificou, até indicar Fátima como “ponto de chegada” de um longo processo que associa a espiritualidade dos corações de Jesus e de Maria.

Segundo José Eduardo Franco, o Santuário enquadra-se nesta longa história florescente da espiritualidade dos corações, que a legitima e lhe dá projeção mundial no dealbar do século XX. Por outro lado, sublinhou que a própria espiritualidade cordimariana — devoção ao Coração de Maria — “ganha em Fátima uma interiorização profunda e assume, definitivamente, uma dimensão eclesial e global”.

 

Fátima universalizou a devoção ao Imaculado Coração de Maria

Fátima não criou a devoção ao Imaculado Coração de Maria, mas foi decisiva para a transformar numa espiritualidade de alcance universal. Esta ideia foi reforçada pelo reitor do Santuário de Fátima, padre Carlos Cabecinhas, que defendeu que, embora a devoção já existisse, foi em Fátima que adquiriu um protagonismo inédito e passou a ocupar um lugar central na vida da Igreja.

Recorrendo aos estudos e a citações dos mariólogos Joaquim Maria Alonso e Stefano De Fiores, o reitor recordou que o Imaculado Coração de Maria constitui “a alma da mensagem de Fátima” e o seu “fio condutor”. Desde as aparições do Anjo, nas quais o coração de Maria surge sempre associado ao Sagrado Coração de Jesus, até às aparições na Cova da Iria e na Galiza, a espiritualidade cordimariana apresenta-se como caminho privilegiado para conduzir os crentes até Deus.

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O padre Carlos Cabecinhas pôs em relevo o papel das aparições de Pontevedra, em 1925 e 1926, e de Tui, em 1929, já só com Lúcia de Jesus, na concretização prática desta devoção, nomeadamente através da ação reparadora dos primeiros sábados.

Recordando o testemunho de vida dos Pastorinhos, o reitor sublinhou que, mais do que elaborações teológicas, Francisco, Jacinta e Lúcia encarnaram esta devoção de forma afetiva e existencial. A Irmã Lúcia dedicou toda a sua vida religiosa à missão de dar a conhecer esta devoção e de a transmitir à hierarquia da Igreja: “Foi incansável no cumprimento desta missão ao longo da sua vida, procurando por todos os meios ao seu alcance divulgar os pedidos do Céu”, lembrou.

Para o padre Carlos Cabecinhas é de realçar que a influência de Fátima ultrapassou largamente o âmbito devocional. Contribuiu, igualmente, de forma decisiva, para a integração da memória litúrgica do Imaculado Coração de Maria no calendário universal da Igreja. Segundo explicou, foi precisamente a projeção mundial da mensagem de Fátima que permitiu que uma celebração até então circunscrita a determinadas dioceses e congregações religiosas passasse a fazer parte da vida litúrgica de toda a Igreja. Em 1996, a celebração foi elevada a memória obrigatória, decisão para a qual, no seu entender, “as aparições de Fátima tiveram direta e clara influência”.

 

O triunfo do coração

Sobre a promessa de Nossa Senhora, na segunda parte do segredo de Fátima, “por fim, o meu Imaculado Coração triunfará”, o padre Carlos Cabecinha reconhece o caráter aparentemente contraditório da expressão. Habitualmente, o triunfo associa-se à vitória dos fortes, ao êxito dos vencedores, ao poder de quem se impõe sobre os outros. Um coração, pelo contrário, remete para a fragilidade.

Sublinha, no entanto, que é precisamente essa leitura que importa evitar. O triunfo do Imaculado Coração de Maria não corresponde à lógica dos vencedores da História. Não se trata da vitória de um guerreiro, de um chefe ou de um herói. Basta recordar a forma como Nossa Senhora apresenta o seu coração em Fátima, cravado de espinhos, sinal de dor e sofrimento.

Ao mesmo tempo, esta promessa interpela a liberdade de cada pessoa. O triunfo do Imaculado Coração realiza-se sempre que alguém escolhe o bem, acolhe a vontade de Deus e responde ao seu chamamento, seguindo o exemplo de Maria.

Nesse sentido, não corresponde a um acontecimento espetacular nem a uma demonstração de poder. É a manifestação silenciosa da ação de Deus na História e na vida das pessoas: “É um triunfo que não se mede pela lógica do domínio do poder, mas pela lógica do amor, do serviço e da oferta da própria vida”, concluiu.

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Estabelecendo uma ponte com a parte final da intervenção de José Eduardo Franco, o triunfo de que fala a mensagem de Fátima é um caminho alternativo que se apresenta ao “Homem líquido” ou “Homem espuma”, expressões usadas por diversos autores para classificar aqueles que esvaziaram a sua dimensão afetiva.

O investigador defende, assim, que a espiritualidade da misericórdia, o “movimento do coração” que abre o ser humano ao outro e ao transcendente, continua a oferecer uma alternativa. Num tempo marcado pela “hipertecnização” e pela inteligência artificial, elogia e defende o conceito de “inteligência cordial” antes avançado por Marco Daniel Duarte e que volta a estar em destaque na intervenção que o diretor da Academia de Estudos dedica à iconografia do Imaculado Coração de Maria, no último dia dos Cursos de Verão.

Nesse contexto, sublinha o coordenador da formação que Fátima, não só inaugura uma nova forma de apresentar o coração de Maria, cercando-o de espinhos — as dores da Humanidade — como também recorre a esse símbolo para exprimir o amor de Jesus  Cristo.

A partir da definição bíblica de coração, centro da existência humana para o qual confluem a razão, a vontade e a sensibilidade, Marco Daniel Duarte reforça que Fátima convida a uma inteligência cordial, a única capaz de conduzir à reconciliação dos Homens.

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