13 de novembro, 2023

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Entrevista ao cardeal D. Américo Aguiar, bispo de Setúbal

O cardeal, novo bispo de Setúbal, presidiu à Peregrinação Internacional Aniversária de outubro. Numa entrevista ao jornal Voz da Fátima faz um balanço da JMJ e dos desafios que deixa à Igreja em Portugal, mas também da necessidade da Igreja portuguesa saber ler os sinais dos tempos, no que respeita à organização e à resposta pastoral que dá. Fátima, tal como os santuários em geral, é vista como uma alavanca de uma renovação pastoral. D. Américo Aguiar fala ainda da guerra e da paz e da globalização da indiferença a que a falta de conversão pessoal deu origem, fomentando o individualismo

 

Olhando para o mundo tal qual como está consegue vislumbrar condições para uma solução de paz definitiva ou pelo menos duradoura?

Infelizmente, tenho alguma dificuldade. A guerra tem sido um expediente vulgarizado por parte de lideranças políticas para atingir fins e objetivos que nem sempre são percetíveis para a opinião pública. 
Se formos ler os livros de História, depois, tudo se torna claro, porque o que estava em causa era um conjunto de acordos conjunturais que resultam das vontades do momento. E, a verdade, é que a Europa se vai habituando e vulgarizando o ambiente da guerra, e, como diz o Papa, assiste-se a uma globalização da indiferença. 
Quando vamos ao terreno, deparamo-nos com uma situação real, a condição humana que nos mostra o verdadeiro lado da guerra.
Quando cheguei à Ucrânia, deparei-me com o funeral de um soldado. E penso no que o seu filho pequeno vai pensar e fazer no futuro: vai querer vingar a morte do pai e a sua dor. E dali nascerá o ódio e o desejo de vingança e a guerra não tem fim.

 

A vingança é mais forte que o amor?

Quando olhamos para a Terra Santa, a terra prometida, ao que é que assistimos?
A este olho por olho, dente por dente, que tem por detrás de si este desejo único de vingança. Quando estou com poder esmago-te; quando tu ficares com o poder esmagas-me tu. Hoje, de facto há uma normalização do que é a guerra e a violência. Veja o que tem sucedido em Portugal, com gestos mais violentos...

 

É a ambição do poder que corrompe o coração humano?

Estou convencido de que quando o Homem dispensa Deus tudo fica pior. Há um ocupar do coração com outras coisas... O Homem perde a noção de que é uma criatura e assume o lugar de Deus e a sua ambição cega-o. Estou convencido disso.

 

Na peregrinação de outubro pediu aos peregrinos que gritassem pela Paz. Um grito que desceu do Céu em Fátima há cem anos, e agora pode lá ter ecoado outra vez. O que é que nós ainda não percebemos ou não conseguimos explicar e espalhar?

Tudo tem de começar em cada um de nós. Nós podemos culpar tudo e todos, mas tudo tem de começar no nosso coração, nas nossas relações. Nós próprios, na nossa vida, no dia a dia, não somos propriamente promotores da paz pelas mensagens que enviamos, pelo que dizemos ou deixamos de dizer, pelo que se consta, pelo que se disse ou deixou de dizer... Vamos também alimentando uma certa guerrilha. O que quero dizer é que nós temos de nos converter. Temos de agarrar as chaves do Céu, usando essa password do amor. No contexto da Jornada, o Papa apelava à “revolução da ternura”, que os jovens pela sua simplicidade são capazes de promover. Eles mostraram isso na JMJ, independentemente da geografia, da maneira de ser: juntaram-se em torno de Deus e do seu amor.

 

Mas isso foi o que vimos num evento. Como transfigurar esse evento na realidade quotidiana? Se olharmos para o mais recente conflito, em escalada de violência, vemos jovens de pedras na mão ou de armas a lutar uns contra os outros, na Faixa de Gaza, na terra prometida...

Nós todos os dias temos possibilidade de fazer o bem ou o mal, de tomarmos a opção da guerra ou da paz. Durante a JMJ tentámos sentar à mesma mesa jovens da Ucrânia e da Rússia... Era bonito, mas ainda não era o tempo. Poderia ter dado boas imagens mas não teria consequências. Não conseguimos perdoar a quem nos faz mal; não conseguimos tolerar quem pensa de maneira diferente da nossa... Os opostos não se entendem. É preciso tempo, cicatrização... E, isso é um processo muito humano. Se é certo que o Evangelho nos diz para perdoarmos 70X7, na verdade, para o fazermos, precisamos de tempo e somos humanos. Não esquecemos com tanta facilidade nem temos disponibilidade para tanto. Nem sempre somos bons alunos.

 

E, pelos vistos, também não somos bons professores... Qual é o valor do perdão?

Há um ruído que me incomoda e que assenta numa meritocracia inicial. Desde que começam a perceber-se como gente, as crianças são instigadas a serem os melhores, ser o único e o primeiro e isso não ajuda muito. Continuamos a cultivar estes sentimentos, por isso, é muito importante que nos questionemos sobre o que andamos aqui a fazer, e isso é percebermos a alegria do Evangelho. Há uma urgência no acerto de comunicação. Nós estamos a falar e não nos entendemos... Nem os jovens nos entendem a nós nem nós os entendemos a eles.

 

Qual é, então, o caminho?

Os jovens estão disponíveis para a missão, para o trabalho. Como naquela imagem medieval em que se juntam os homens todos para construírem uma catedral.
Os jovens de hoje são de uma generosidade sem limites para a missão e quando nós tocamos o sino vêm todos; quando o fazemos para a oração, para uma zona porventura mais cinzenta, académica ou de reflexão, já temos mais dúvidas. Por isso, o caminho é escancararmos a porta da missão e, depois, quando os jovens estão empenhados e comprometidos levá-los a conhecer o resto: a amar, a respeitar e aí descobrirem o Cristo vivo. Isto implica muitas mudanças.
Se no nosso país, a maioria dos bebés que nascem não são batizados, se grande parte dos casais não casa na Igreja, dentro de muito pouco tempo temos toda a gente fora e isso coloca-nos em alerta vermelho... Para quem ainda não despertou isto coloca-nos numa realidade muito difícil, que foi acelerada pela pandemia. O regresso tem de ser diferente.

 

Estamos a falar para dentro e não para fora?

Julgo que sim. Há uma certa predisposição numa certa geografia existencial e geográfica para uma dita pastoral da manutenção, que acaba a engordar os que estão dentro...
A mim causa-me estranheza, e até alguma dor, quando o Papa nos lembra todos os dias de que a Igreja é de “todos, todos, todos”, que alguns ainda não o aceitem e que alguns ainda queiram que não seja assim, ou ofereçam resistência a que seja assim. E, repare, “todos, todos, todos” não é igual a “tudo, tudo, tudo”. Os pais e os amigos que nos respeitam e nos amam não estão sempre de acordo, não pensam tudo da mesma maneira, nem nos dizem sim a tudo. Tentam ajudar-nos a caminhar, como o feijão e a estaca: é preciso alguma ajuda mútua. E eu noto que o “todos, todos, todos” causa alguma alergia. Não pode ser, porque o Evangelho é para todos e não só para alguns. Não podemos estar às portas do primeiro quartel do novo milénio com ideias mofas ou medievais, de que o anúncio do Evangelho é para pessoas especiais ou para uma casta...

 

Há dois verbos que são essenciais: escutar e considerar...

Sim, os nossos queridos papas ensinaram-nos o valor do diálogo ecuménico e inter-religioso. Por exemplo, quando me perguntaram o que é que eu esperava do encontro e da participação de jovens de outras religiões na JMJ, eu disse que esse encontro não era para converter ninguém... Lembra-se do que disseram? A conversão é feita no coração de cada um. Estou é convencido, é a minha esperança, de que estes jovens que acederam ao convite de um Cristo Vivo se encontrem com Ele e se deixem converter; possam eles próprios perceber que o caminho é este não por imposição ou proibição de outros caminhos, mas por opção dos próprios.

 

Proponho que regressemos à JMJ. O Senhor, Portugal e o Vaticano conseguiram mobilizar a Juventude para que todos cá tivessem estado. Foi um acontecimento maravilhoso! Mas o que sobra do evento?

Desejo e rezo para que a sementeira dê frutos e que a Jornada seja um ponto de partida. Muita semente foi lançada à terra...

 

Conhece a Igreja e conhece os jovens e a sua missão fazedora. Há possibilidade de ambas as vontades coincidirem?

Pois... aí eu tenho dito e repetido, de forma provocadora: se a única coisa que as nossas dioceses, as nossas paróquias e as comunidades têm para propor aos jovens for a missa ao domingo às 11h00, temo que não vá correr bem. Absolutamente, não vai correr bem. 
Há algo que é muito evidente depois destas jornadas: os jovens precisam da nossa disponibilidade para os acompanharmos. A grande diferença está aqui: não é no domingo às 11h00, mas na sexta-feira à noite, na segunda à tarde e por aí fora. É quando for; por isso, tenho apelado aos sacerdotes, que estão responsáveis pela pastoral da juventude, que se libertem de todas as amarras e tenham esta disponibilidade para os jovens, que é o que acontece com a pastoral junto de movimentos e junto de congregações e nem sempre acontece ao nível diocesano.
É fundamental que os agentes pastorais ligados à juventude tenham disponibilidade para acompanhar estes jovens no caminho.

 

O que é que hoje teria feito de diferente na preparação da JMJ?

A Jornada de Lisboa corrigiu algumas opções da do Panamá e estou certo de que haverá correções em Seoul. Também tenho consciência de que as dioceses que receberam os símbolos em primeiro lugar tiveram mais dificuldade em manter a chama acesa do que aquelas onde os símbolos passaram já em cima da Jornada. O que é importante é que nada disto tenha sido um fogacho. O dar seguimento é como pôr o guiso no gato. Nós fizemos o trabalho no terreno, alguns conseguiram superar-se, mas o desafio é este: sermos capazes de dar continuidade à Jornada Mundial da Juventude, para não ouvirmos em 2030 o que ainda hoje ouvimos em Madrid.

 

O que é que guarda para si que mais o tenha marcado?

Há dois momentos: a visita dos símbolos à cadeia de Lamego. Nesse momento, no pátio da cadeia, murado com muros tão altos, vi rostos transfigurados diante dos símbolos e isso tocou-me.
O outro momento foi a descida do Rio Douro, e a chegada à Ribeira do Porto. Foi um miminho especial de Deus.

 

A JMJ foi um exercício de sinodalidade pelo percurso, pela metodologia e pelo tempo... O que espera do sínodo que estamos a viver em Roma, na dialética entre os que esperam tudo e os que não querem nada?

Temos de fazer a diferença entre o sínodo mediático e o real, que não serão a mesma coisa. Haverá sempre expetativas goradas, porque há uns de nós que acreditam que amanhã será outra coisa e eu acho que não irá ser outra coisa; continuamos a ser nós, igreja de Cristo e, por outro lado, aqueles que acharão que se foi longe de mais. Mas, o importante é que continuemos a caminhar, a escutar-nos uns aos outros e a considerar-nos uns aos outros, sem considerarmos que estamos num parlamento, mas abrindo-nos à escuta do Espírito. Este é o desafio maior. Não é o que eu quero mas o que o Espírito Santo sopra e a leitura de quem está ao leme. Por isso, confio inteiramente no Papa.

 

Mas reconhece que há expetativas, perceções e sobretudo um jogo que se joga na tal bolha mediática...

Sim, temos a questão alemã, temos as posições da Europa central, da América e de outras geografias. Temos muitos gritos e estamos todos à espera de anúncios que podem não aparecer. O Papa já rachou a pressão com uma segunda sessão em 2024...

 

Corre-se o risco da desilusão e de nova perda de relevância da Igreja?

Corremos, sem dúvida. É aquela questão da indispensabilidade da missa das 11h00, mesmo que a missa não tenha ninguém... “Mas eu e a minha família sempre nos sentámos aqui desde o século XII e, por isso, queremos continuar aqui.”
Se persistirmos neste “sempre foi assim e, por isso, tem de ser assim”, será difícil.

 

Alguma teimosia em ler os sinais dos tempos pode afastar-nos da realidade?

Sem dúvida; temo bem que sim. Voltamos à conversão: se eu não me quero converter..

 

Olhando para Fátima, vemos movimentos diferentes com uma mobilização muito significativa, um fenómeno que não é só de Fátima, mas de outros santuários. Como podem os santuários ser agentes de mudança de uma pastoral de manutenção?

Se olharmos para a nossa rede paroquial, ela cheira ao Império Romano e não tem nada a ver com a realidade dos tempos de hoje, nem com a vida das pessoas, nem com os centros de interesse, nem com coisa nenhuma. Isto exige um redesenho que não significa fusão ao jeito das juntas de freguesia mas redesenhar de baixo para cima em função de centros de interesse. Há em Portugal muitos centros de interesse cristãos. No contexto desses centros, há Fátima, que é inultrapassável, gostemos ou não. Há pessoas que vêm a Fátima só para celebrarem o sacramento da Reconciliação e por isso este serviço que o Santuário presta é inestimável. Este é um exemplo da importância do Santuário. Depois, o Santuário tem outro tesouro importante que é a piedade popular que nós às vezes, para mostrarmos que somos modernos, desvalorizamos. As pessoas neste altar do mundo, nesta igreja de todos, sentem-se acolhidas e respeitadas. 
Se quisermos ser assertivos ao desenhar a pastoral da Igreja portuguesa não podemos deixar de fora os santuários e especialmente o que aqui está a ser feito e que pode vir a ser feito a partir de Fátima

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