27 de agosto, 2026

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Espaço Padre Formigão: um lugar fora do Santuário que fala da mensagem de Fátima

A poucos metros do Santuário, há um espaço que oferece aos peregrinos a oportunidade de conhecer este “apóstolo de Fátima”.

 

Do lado sul do Santuário de Fátima, na Rua Francisco Marto, um painel de grandes dimensões com uma foto de Manuel Nunes Formigão sinaliza a entrada do Espaço Padre Formigão — Casa do Apóstolo de Fátima, criado em 2017, ano do centenário das Aparições, quando os restos mortais do sacerdote foram transladados para um mausoléu que integra a casa, que pode ser visitada de terça a domingo, entre as 9h00 e as 18h00.

O edifício pertence às Irmãs Reparadoras de Nossa Senhora de Fátima, cuja congregação, fundada pelo padre Formigão, criou este espaço.

Fomos recebidos pela irmã Amália Saraiva, que esteve envolvida no projeto, cuja museologia é da autoria do diretor do Museu do Santuário de Fátima, Marco Daniel Duarte.

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Uma personalidade incontornável

À entrada, estão à disposição do visitante guias em várias línguas, para se poder acompanhar mais detalhadamente o vasto espólio ali exposto.

“Cada vez mais recebemos visitas de peregrinos de várias nacionalidades, com interesse em conhecer a vida do padre Formigão”, refere a irmã Amália, ao introduzir-nos no primeiro núcleo, que apresenta o sacerdote no tempo e no espaço, através dos seus pertences.

“Não é muito espaçoso, não é muito amplo”, avisa a cicerone, a antecipar uma arquitetura museológica que conduz o visitante através de um corredor que amplifica o som de água a correr, algures, ao fundo daquele espaço.

Num dos alçados, uma linha cronológica dá a conhecer os momentos mais significativos da história do padre Formigão, contextualizando os objetos pessoais que ali são mostrados.

Dispostos em pequenos círculos na parede estão os óculos, de aros redondos, com os quais testemunhou o ambiente das aparições de setembro e outubro, as botas com as quais palmilhou o terreno inóspito da Cova da Iria de 1917 ou a pasta onde terá guardado documentos preciosos, tais como o primeiro interrogatório que, entre setembro e novembro de 1917, fez aos Pastorinhos, que hoje são uma fonte preciosa para conhecer os videntes de Fátima.

“Tornou-se, de facto, uma personalidade incontornável no que diz respeito ao acontecimento de Fátima, não só pela divulgação, mas também pela ação concreta de proteger os Pastorinhos e o espaço onde atualmente é o Santuário”, lembra a irmã Amália.

Além daqueles objetos, uma escultura de Nossa Senhora de Lourdes testemunha a sua profunda devoção mariana, comprovada nas inúmeras vezes que foi àquele santuário francês, no regresso de Roma, onde estudou e foi ordenado presbítero, na Basílica de São João de Latrão.

Ao longo do percurso, o visitante é convidado a ler pequenas passagens retiradas dos 20 cadernos espirituais manuscritos deixados pelo padre Formigão, que concretizam a ávida natureza observadora, intelectual e espiritual do apóstolo de Fátima.

“Ele escrevia as suas anotações em páginas de jornais, cartas que recebia e até em bilhetes de comboio”, assegura a nossa anfitriã, com a qual seguimos viagem até ao segundo núcleo, que vai falar da vocação do padre Manuel Nunes Formigão à santidade.

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Humildade, dedicação e delicadeza

O processo de canonização do padre Formigão, aberto no ano de 2000, conheceu o desenvolvimento mais significativo um ano após a sua transladação para o espaço que agora visitamos.

Em abril de 2018, o Papa Francisco reconheceu as suas virtudes heroicas, atribuindo-lhe o título de Venerável e abrindo caminho à promoção do culto privado em torno da sua figura. O Núcleo II foca-se no seu percurso espiritual, procurando evidenciar a trajetória de vida que o conduziu a este reconhecimento pela Igreja.

“Para o processo canónico, os relatos de quem o conheceu mostram que a humildade, a dedicação e a delicadeza são transversais a toda a sua vida”, destaca a irmã Amália, ao definir o perfil de uma figura que optou por “viver sempre na sombra”. Esta atitude foi sobretudo evidente nas realidades que ajudou a fundar, como o jornal Voz da Fátima, as congregações religiosas, os Servitas, ou noutros processos que decorreram das aparições, nomeadamente quando integrou a comissão canónica que vai definir a veracidade das aparições e a sua aprovação diocesana, acrescenta a religiosa.

Nascido em 1883, em pleno Convento de Cristo, em Tomar, onde o seu pai estava aquartelado, foi batizado naquela cidade, na pia batismal da igreja de São João Batista, agora estilizada na entrada deste segundo capítulo da visita.

Neste núcleo, onde o batismo é mostrado como início e o sacerdócio como processo do caminho de santidade, pode admirar-se a sua veste batismal, uma pagela comemorativa da sua primeira missa e um cálice e uma patena com os quais celebrou a eucaristia.

O som da água torna-se mais presente à medida que nos aproximamos do terceiro núcleo, que é introduzido por uma casula branca. É ali que uma fonte de água corre junto ao túmulo onde estão sepultados, desde 2017, os restos mortais do padre Formigão.

 A arquitetura do espaço tumular, onde se destacam os tons dourados sobre a pedra branca, convida à oração e sublinha a grande harmonia da sua personalidade, a unificação interior e exterior e a sua nobreza cultural, intelectual e espiritual.

“O padre Formigão era, de facto, um homem despojado, não só das suas ideias, mas também das suas ações. Era mesmo uma pessoa evangelicamente despojada”, sublinha a irmã Amália, ao encaminhar a atenção para um soneto inscrito na parede, da autoria do sacerdote, que evidencia a sua fé, devoção a Nossa Senhora e patriotismo.

 

Professor, escritor, fundador e apóstolo de Fátima

À margem da narrativa museológica bem delineada, colocamos uma pergunta que ajuda a definir os traços do protagonista: o que dizem da personalidade as irmãs da congregação que privaram com o cónego Formigão?

“Ele tinha uma postura muito interiorizada, de quem parecia estar sempre em oração, mas um dos aspetos relatado com muita frequência era o seu sentido de humor. Nunca o viram rir à gargalhada. Sorria apenas, mas tinha um sentido de humor extraordinário, sobretudo das coisas do quotidiano”, revela a irmã Amália.

Entramos no quarto núcleo, que mostra o padre Formigão na sua ação pastoral enquanto professor, escritor, fundador e apóstolo de Fátima.

Entre os diplomas de doutoramento em Teologia e Direito Canónico e de professor do ensino secundário, um exemplar da primeira edição da Voz da Fátima, para a qual escreve o editorial sob o pseudónimo de Visconde do Montelo, e peças relativas à fundação das Reparadoras de Nossa Senhora de Fátima, estão outros escritos e objetos que fizeram dele um verdadeiro apóstolo de Fátima.

Ali, podemos ver o manuscrito do interrogatório que fez a Francisco Marto, a agenda onde escreveu no dia da morte de Jacinta Marto, um relicário com um fragmento de osso de Francisco Marto ou a carta da Irmã Lúcia a convidá-lo para a sua profissão, ao lado de um lenço da vidente.

“O padre Formigão acompanhou muito os Pastorinhos em situações e fases diferentes. Não só as crianças, mas também os pais. Durante a doença dos pequenos videntes, foi incansável. Levou, inclusivamente, por duas vezes o médico à casa da Jacinta, para convencer os pais de que era necessário que fosse levada para Lisboa, para tentarem salvá-la. O pai das crianças tinha absoluta confiança no padre Formigão”, refere a irmã Amália.

Para comprovar esta atenção diligente, está ali exposta também uma carta em que Manuel Pedro Marto, pai de Jacinta e de Francisco, agradece ao padre Formigão os cuidados que teve para com a filha. Parte das peças ali expostas são, por isso, doação da família, como forma de gratidão pela atenção e proximidade do sacerdote.

“O que fez com que o cónego Formigão acreditasse nas Aparições de Fátima foram os interrogatórios que fez aos Pastorinhos”, dado que, das primeiras vezes que veio, em setembro de 1917, se mostrou algo cético, lembra a nossa guia, que particulariza a relação de muita proximidade que tinha com Jacinta Marto.

“O padre Formigão caraterizava os diálogos que tinha com ela como ‘colóquios íntimos’. Havia também proximidade com a Lúcia e com o Francisco, mas com a Jacinta havia uma relação de grande identificação espiritual, aspeto que depois vamos percebendo ao longo da sua vida”, explica a irmã Amália, num momento em que podemos ver de perto um pedaço da camisa da vidente mais nova.

É para o cónego Formigão que a pequena Jacinta envia o recado que Nossa Senhora lhe deixa no hospital de Lisboa, a pedir a reparação, pedido este que terá um impacto muito grande na fundação da congregação das Reparadoras de Nossa Senhora de Fátima, em 1926.

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“Uma santidade fácil de imitar”

O padre Formigão faleceu a uns escassos cinco metros do local onde está sepultado, num quarto preservado e integrado neste último núcleo expositivo.

Na mesinha de cabeceira, ao lado de uma campainha que usava para pedir auxílio, após o acidente vascular cerebral que o deixou debilitado, está uma imagem de Nossa Senhora de Fátima, feita pelo mesmo escultor da imagem centenária que se venera na Capelinha das Aparições.

 A visita termina numa capela que pretende ser uma extensão daquele espaço e onde diariamente as irmãs cumprem o pedido de reparação deixado por Nossa Senhora.

“Enquanto aqui se conta a vida e a obra do padre Formigão, na capela pretendemos exprimir a sua espiritualidade”, explica a irmã Amália, ao sintetizar a vida do padre Manuel Nunes Formigão sintonizada com Deus.

“É a santidade mais fácil de imitar, não pela facilidade da sua vida, mas porque não tem nada de extraordinário. Tudo nele e na vida dele é muito comum, ordinário, quotidiano”.

Para sair, fazemos o caminho inverso e, no primeiro núcleo, voltamos a admirar o relógio de bolso ali exposto, ainda a marcar as horas, a lembrar que a vida do seu proprietário se estendeu além do tempo, pela entrega a algo que sempre considerou maior do que si próprio.

“Estou convencida de que os peregrinos, ao virem aqui, não estão a ouvir falar de outra coisa senão da mensagem de Fátima”, concluiu a nossa guia, na despedida.

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