14 de janeiro, 2026

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“Fátima é como uma pequena antecipação do Céu”

Matilde Olivera foi convidada a dar forma à visão que Lúcia testemunhou de Nossa Senhora e do Menino Jesus, em Pontevedra. Em entrevista, a artista espanhola fala dos desafios na execução da escultura, do processo criativo e da ligação crescente a Fátima.

 

Quando o Santuário lhe lançou o desafio de esculpir a aparição de Pontevedra, para a exposição temporária "Refúgio e Caminho", soube imediatamente como o faria?

Não soube imediatamente. Primeiro tive de me informar sobre a aparição para entender como tinha acontecido exatamente. Marco Daniel Duarte, diretor do Museu do Santuário, facultou-me informações sobre as aparições, o que me ajudou muito. Depois, comecei a fazer esboços para, pouco a pouco, dar forma à descrição da Irmã Lúcia; todo o projeto foi-se desenvolvendo à medida que avançava; aliás, fiz alterações significativas na composição quando já estava a modelar a figura em tamanho real. A policromia também mudou muito durante todo o processo. Diria que a imagem foi tomando forma gradualmente, foi-se revelando com o passar dos dias

 

O que mais a entusiasmou na realização desta obra?

Entusiasmou-me o facto de, desde o início, me ter sido dada carta branca. Em nenhum momento me foi pedido que a imagem seguisse uma linha estética concreta ou um determinado estilo artístico. É muito raro que uma encomenda desta dimensão venha acompanhada de total liberdade para a sua execução. Esta obra permitiu-me desenvolver a abordagem que procuro quando faço Arte Sacra: uma abordagem em que tento incorporar a tradição iconográfica do passado e, ao mesmo tempo, deixar que as obras sejam filhas do presente.

 

Que aspetos desta escultura representaram o maior desafio?

Houve muitos aspetos que representaram um desafio. Por um lado, trata-se de uma aparição, de uma visão, e eu queria, de alguma forma, mostrar que estamos perante algo diferente da realidade física tangível que conhecemos. Procurava transmitir uma certa sensação de imaterialidade ou de vago, algo que se pode ver, mas não abarcar completamente. Por isso, há áreas mais desfocadas: a nuvem sobre a qual se encontram as duas figuras funde-se com os pés e as pernas, ganhando definição de baixo para cima. Queria fugir de uma certa circularidade das formas, de uma descrição demasiado detalhada de cada elemento, e não sabia muito bem como conseguir isso.

Por outro lado, a Irmã Lúcia não diz quantos anos teria o Menino, o que me levantava dúvidas sobre se deveria representar uma criança muito pequena ou não.

Mas, sem dúvida, o maior desafio foi o lugar que o coração de Maria ocupa na obra. Segundo a descrição de Lúcia, a Virgem aparece com o coração na mão; isto pode ser muito forte em palavras (sem dúvida seria muito impressionante vê-lo ao vivo), mas, ao traduzi-lo para a linguagem escultórica, perdia muita força. Comecei a modelar Maria com a sua mão direita estendida para a frente, com o coração na mão, mas vi que não se entendia de todo. Um coração real tem o tamanho de um punho e a própria mão que o segurava tapava-o parcialmente. Além disso, na iconografia cristã há todo o tipo de elementos que muitas vezes são colocados na mão da Virgem, desde uma romã a um pássaro ou, frequentemente, um orbe; assim era difícil perceber o que Maria tinha na mão; não era claro até nos aproximarmos para verificar e eu precisava que isso fosse compreendido também à distância. Quando modelei a mão estendida com o coração sobre ela, ficou claro para mim que teria de o representar de uma forma não literal, e isso foi o mais complexo de todo o projeto.

 

Quanto tempo trabalhou nesta obra?

Desde que comecei com os esboços até terminar a policromia foram cerca de quatro meses.

 

Sentiu uma maior responsabilidade por nunca ter sido feita uma escultura figurativa desta aparição de Pontevedra?

A verdade é que não posso dizer que isso me tenha afetado.

 

Não deixa de ser curioso que, tratando-se de uma aparição ocorrida em Espanha, seja uma artista espanhola a realizar a primeira escultura figurativa. É um aspeto relevante para si ou não?

Sei que na capela de Pontevedra existe uma pequena escultura da aparição, mas na altura em que fiz a escultura não a conhecia. Por isso, não sei se sou a primeira a realizar uma escultura figurativa desta aparição, mas, de qualquer forma, nunca me tinha ocorrido o tema da nacionalidade. Parece-me um detalhe curioso, mas nada mais.

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Gosta de esculpir a figura de Maria?

Sim. Maria é a figura que mais me pedem para representar e, na verdade, gosto muito de a representar. Não há criança pequena que não goste de desenhar a sua mãe. Acho que, nesse aspeto, ainda não cresci.

 

Maria parece-se sempre um pouco consigo. É verdade que parte do que vê ao espelho?

Acho a pergunta engraçada, porque há muitas pessoas que me dizem que as minhas Virgens se parecem comigo, mas eu não vejo isso. A verdade é que fico um pouco envergonhada, pois nunca me colocaria a mim própria como modelo. No entanto, é verdade que, durante anos, usei a minha irmã como inspiração para representar Maria; dizem que somos parecidas. Desta vez, não usei a minha irmã como modelo, mas suponho que, ao repeti-la tantas vezes, interiorizei tanto os seus traços, que acabam por surgir mesmo sem eu querer, e isso faz com que algumas pessoas encontrem semelhanças comigo. No entanto, uso as formas das minhas próprias mãos (com ou sem espelho) para modelar as das figuras, ou meço partes do meu próprio corpo, afinal, tenho-o convenientemente à mão.

 

E para o rosto do Menino Jesus teve algum modelo?

Para o rosto do Menino não utilizei nenhuma referência concreta; modelei-o sobretudo a partir da minha imaginação. Para o corpo, com a túnica e a postura, fotografei os meus sobrinhos, que me serviram de guia.

 

Na sua escultura, o coração rodeado de espinhos não está na mão nem sobre o peito. Parece arrancado. Essa interpretação está correta?

Como expliquei anteriormente, o lugar do coração foi o maior desafio que enfrentei. Decidi colocá-lo no peito para que ficasse claro do que se tratava, mas não queria colocá-lo sobre o peito, como muitas vezes se faz. Queria que estivesse dentro do peito, mais ou menos no local anatómico real. Isso significava que, para se poder ver o coração dentro do peito, era necessário criar uma espécie de janela que permitisse ver o interior, ou seja, o peito tinha de estar rasgado. Nesse sentido, gostava da ideia de que se percebesse que a janela era o resultado de se ter arrancado a carne, ou de se ter arrancado o coração. Mas se olharmos bem, o coração continua lá dentro, com os espinhos representados por incisões.

 

No relato da aparição, o Menino fala com Lúcia, mas na escultura olha para a Mãe e estende a mão e o braço esquerdos. O objetivo é conduzir o nosso olhar para Maria e para o seu coração?

Exatamente. Na escultura, o movimento é transmitido ao representar, ao mesmo tempo, as várias fases desse movimento (algo que aprendi com Rodin). Aqui, o movimento é a sucessão dos diálogos entre o Menino e Lúcia, em primeiro, e, depois, entre Maria e Lúcia. A ação começa com o Menino a convidar Lúcia a contemplar o coração de Maria. Essa primeira interação está presente no gesto do Menino que estende a sua mão e nos introduz na cena. A sua mão estendida interpela-nos. Essa mão é o início do diálogo, a mão diz-nos “Tu ou Vem”. No entanto, a sua cabeça está voltada para o coração da sua Mãe, pelo que, depois de lhe agarrar a mão, o nosso olhar continua a subir até descobrirmos que ele nos está a convidar a olhar. A sua cabeça diz-nos “olha para o coração da minha Mãe”. Aí, o nosso olhar detém-se e vê o coração cheio de espinhos ou, se não os consegue ver, percebe que está como que arrancado do peito. O coração diz-nos “estou com dor”. A partir daí, o nosso olhar dirige-se para o rosto de Maria que sofre essa dor. Maria tem agora a palavra e dirige-se a Lúcia, ao espetador, a cada um de nós, fala connosco. O rosto de dor da Virgem Maria pede-nos “consola-me”.

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Prefere esculpir ou pintar?

Gosto muito das duas e não conseguiria escolher uma em detrimento da outra. De facto, gosto de alternar entre as duas atividades. Sempre que trabalho durante muito tempo numa escultura, depois volto à pintura com muita vontade e vice-versa. Acho que se me dedicasse apenas à pintura ou à escultura, acabaria por me cansar. A possibilidade de passar de uma para a outra permite-me renovar a energia e a vontade de iniciar novos projetos.

 

Os projetos de Arte Sacra constituem uma parte importante do seu trabalho. Porquê esta área? O que lhe traz?

Comecei a trabalhar em projetos de Arte Sacra por acaso (ou providência). Não foi algo que eu procurei inicialmente. Depois, pouco a pouco, os projetos e as encomendas foram surgindo e este caminho foi-se consolidando. Sou crente e sempre gostei de trabalhar Arte Sacra. Com o passar dos anos, fui-me apercebendo de que isso faz parte da minha vocação, no sentido mais profundo da palavra, que Deus me deu alguns dons e quer que os coloque ao serviço da sua Igreja. Gosto de poder ajudar as pessoas a aproximarem-se de Deus através da Arte, de proporcionar um ambiente favorável à oração ou de tornar a Liturgia mais bela e facilitar assim a vivência das celebrações.

 

Que artistas do passado ou do presente a inspiram?

Há muitos que me inspiram, de todas as épocas, e todos os dias continuo a descobrir artistas que não conhecia, tanto contemporâneos como do passado. Mas se tiver de dar nomes, embora pareça pouco original, do passado referiria os maiores, Miguel Ângelo, Velázquez, Vermeer, os mestres do século XIX como Sargent, Casas, Rodin ou Bellver. Também me fascinam os artistas anónimos do Românico. É difícil ser explícita, todo o passado artístico me inspira. Não me é também fácil citar nomes de artistas mais atuais ou contemporâneos. Há tantos! Fascinam-me Pietro Annigoni, Grzegorz Gwiazda, Leroy Transfield, Joanna Allen, Max Leiva; também me inspiram amigas minhas de curso que fazem verdadeiras maravilhas, como Teresa Fúster ou Laura Ríos, que sempre me inspiraram e encorajaram a seguir o caminho da Arte. Na verdade, se tivesse de enumerar todos os artistas que me inspiraram, acho que encheria várias páginas só a mencionar nomes.

 

O Menino Jesus disse a Lúcia que é necessário restaurar a bondade no coração humano. A Arte pode ajudar a alcançar esse objetivo?

Creio que sim. A Arte tem a capacidade de revelar o mundo, de torná-lo mais compreensível, e o mundo está impregnado da bondade de Deus. A verdadeira Arte pode tornar tangível essa bondade, que se traduz em beleza. Eu acredito que o encontro com essa bondade e beleza das obras de Arte pode transformar o coração.

 

A Arte pode aproximar as pessoas da religião?

Sem dúvida alguma. Afinal, somos espírito e matéria, precisamos da realidade material também para conhecer a realidade espiritual, por isso Deus deu-nos os sacramentos. Acredito que a Arte é uma espécie de protossacramento que é universal e que pode tornar presentes e tangíveis as realidades intangíveis.

 

Gosta de vir a Fátima?

Cada vez que vou, gosto mais. Nos últimos três anos, pude ir quatro vezes e, quando vou, sinto cada vez mais que estou a chegar a casa.

 

O que mais a atrai em Fátima?

Gosto muito de sentir o Catolicismo. Cada pessoa que vai ao Santuário vem de um lugar diferente; veem-se pessoas de todas as raças e ouvem-se todas as línguas e, no entanto, é evidente a unidade que existe entre todos. É como uma pequena antecipação do Céu. Também me maravilham o terço e a procissão das velas, que acho muito especial.

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