12 de agosto, 2007

D. António Vitalino Dantas, Bispo de Beja e presidente da Comissão Episcopal da Mobilidade Humana, presidiu na noite de 12 de Agosto à Eucaristia Internacional de Agosto.
 

 
Realidade das Emigrações relembrada em Fátima 
 
 
Não podemos continuar a permitir que, enquanto uma parte do mundo vive na abundância e no esbanjamento, uma maior parte viva na miséria
 
 
 
Amados Peregrinos,
1.Vindos de perto e de longe, juntamo-nos aqui em Fátima, lugar que Nossa Senhora escolheu para recordar a um mundo dividido e em guerra o essencial daquilo que Jesus disse e fez na plenitude dos tempos, há dois mil anos, por nosso amor, para nosso bem e salvação.
Nesta peregrinação queremos avivar na nossa mente e no nosso coração alguns aspectos da mensagem evangélica de Nossa Senhora aqui em Fátima, há 90 anos, transmitida a três inocentes crianças, que, nesta altura do mês de Agosto, estavam presos em Ourém, impedidos de estar aqui na Cova da Iria no dia 13, para receber a visita e a mensagem da Senhora que em Maio de 1917 lhes dissera para vir a este lugar nos dias 13 dos meses seguintes. À intercessão dos bem-aventurados Francisco e Jacinta e também da irmã Lúcia recomendamos hoje todos os nossos irmãos forçados a abandonar a sua pátria, as suas famílias, uns por motivos económicos, outros pelo ódio e violência dos poderosos deste mundo. Como outrora os pastorinhos, também nós hoje acreditamos que o poder de Deus, o seu amor e misericórdia, manifestados nos imaculados corações de Jesus e de Maria, sairão vencedores. Mas como os pastorinhos também aqui viemos pedir a Deus que aumenta a nossa fé, a nossa esperança e o nosso amor e, como eles, aprendamos a oferecer a nossa oração e sacrifícios pela conversão dos pecadores, para que reine a paz nos nossos corações, nas famílias e entre os povos.
O número de migrantes e deslocados no mundo atinge quase 200 milhões, muitos deles, mais de vinte milhões, são refugiados, o dobro da população portuguesa. É uma vergonha para o género humano, depois de tantos séculos de história, ainda não ter aprendido a viver em paz com os seus semelhantes, sabendo administrar os bens deste mundo em benefício de todos!
 
2. Queridos peregrinos de Fátima, hoje estamos aqui tendo também presentes na nossa oração quase 5 milhões e emigrantes portugueses, espalhados pelo mundo, cerca de um terço da nossa população, e quase meio milhão de irmãos nossos, imigrantes no nosso país, que aqui procuram o bem estar para si e suas famílias, como nós o procuramos por outros países. Vivemos num mundo global, em constante mobilidade, à procura de uma vida melhor, mas, como crentes em Deus, à semelhança do povo eleito e de Abraão, de que nos falavam as duas primeiras leituras, sempre confiantes no poder e na misericórdia de Deus, peregrinos da terra prometida, dos novos céus e da nova terra, cujo esboço já antevemos na fé, mas cuja realização plena será para todos um dom de Deus, que temos de continuamente implorar: venha a nós o vosso Reino. Aqui em Fátima viemos também fortalecer a nossa atitude de vigilância, aumentar a chama das candeias da nossa fé ou até mesmo reacendê-la, para que, quando o nosso fim na terra chegar, experimentemos a alegria do encontro definitivo com Deus, Trindade santíssima, Pai, Filho e Espírito Santo, comunidade e família de amor e felicidade, da qual nos quer fazer participes.
 
3. Irmãos peregrinos, aqui reunidos em vigília de oração, num santuário que acolhe gente de todo o mundo, decerto estais conscientes do significado de sermos uma assembleia unida à volta de Nossa Senhora, que nos quer pôr em comunhão profunda com seu Filho, Jesus, nosso Salvador, sem discriminação de raças, de cores, de ideologias políticas ou de proveniência. Aqui antecipamos simbolicamente a realidade do Céu. A Igreja tem de ser testemunho, sinal e realização da união do género humano em Deus. Mas também estamos conscientes do longo caminho que temos a percorrer até à realização total desse desígnio de Deus. Podemos dizer que Fátima antecipa essa vontade de Deus. Por isso nós viemos até aqui, percorrendo longas distâncias e sentimo-nos bem neste recinto, conscientes de que Deus está connosco e Nossa Senhora, que é Mãe, intercede por nós e nos pede, para escutarmos seu Filho, Jesus Cristo. A maioria dos emigrantes sente a necessidade de vir a Fátima no tempo das suas férias. Aqui sente aquilo que muitas vezes falta lá fora: a comunhão com Deus e uns com os outros, sem acepção de pessoas. Levemos também daqui, sabendo que Maria nos acompanha, a forte vontade de realizar essa comunhão nos locais onde vivemos e trabalhamos, a começar pelas nossas famílias.
 
4. Irmãos peregrinos, temos necessidade de caminhar juntos, acolher no nosso caminho os nossos semelhantes, escutá-los e dialogar com eles sobre as razões dos nossos e dos seus desânimos, mas também da nossa esperança, convidá-los a entrar nas nossas casas, partilhar com eles as nossas vidas, para recobrarmos ânimo, descobrimos o sentido da vida e trilharmos o caminho da comunhão fraterna, na certeza de que onde há amor aí está Deus.
Esta experiência de vida e de amor começou no seio da nossa família e precisa de ser continuada e alimentada, para que não percamos a nossa identidade, aquilo que nos define como pessoas e nos deixa sentir bem dentre da nossa pele e na convivência uns com os outros. Na família fomos chamados à vida, para construirmos a família humana, cuja origem e fim último está na família divina. Precisamos da família para termos a vida e aprendermos os valores essenciais da vida, que definem a nossa identidade: o amor, a alegria, a comunicação por palavras, gestos e atitudes, a atenção aos outros, sobretudo aos mais débeis, como são as crianças, os idosos, os doentes, os pobres, os peregrinos, os migrantes, os deslocados, os perseguidos e refugiados. Sem famílias unidas no amor será impossível a construção da família humana e a paz entre os povos.
 
5. A experiência da escravidão no Egipto foi para Moisés motivo para recomendar ao seu povo,  não o ódio e a vingança, mas o acolhimento e o amor para com os estrangeiros. Assim começou a ganhar força o princípio de que não devemos fazer aos outros aquilo que não gostamos que nos façam a nós ou nos fizeram, pois nunca se deve pagar o mal com mal igual ou pior, mas com perdão e misericórdia.
Também muitos de nós se podem lembrar do que lhes aconteceu em terras estrangeiras, muitas vezes fugidos de cá e mal acolhidos em terras de destino, por vezes até por membros do próprio país, que aproveitaram a situação de dependência dos seus compatriotas, para os explorar e fazer riqueza. Agora lembremo-nos daqueles que vêm até nós e ajudemo-los a libertar-se dos seus medos e opressores, das máfias dos seus irmãos de raça, para que se tornem cidadãos integrados no nosso país e possam reconstruir a sua vida, promover as suas famílias e contribuir também para o bem do nosso país e do seu país de origem. A nova lei da imigração e o ante-projecto de regulamentação em curso vieram trazer alguma clareza nos procedimentos, sobretudo na concessão de residência e no reagrupamento familiar, mas ainda há um longo caminho a percorrer, não apenas em Portugal, mas na comunidade europeia e no mundo mais desenvolvido. Não podemos continuar a permitir que, enquanto uma parte do mundo vive na abundância e no esbanjamento, uma maior parte viva na miséria, muitos morrendo nos mares e nos desertos, à procura de terras mais hospitaleiras. Não podemos admitir que se veja nos migrantes apenas a vantagem da sua mão de obra, o seu saber, à custa das suas famílias e da solidariedade entre os povos. Sem esta, sem oração, sem amor e sem desenvolvimento justo de todos os povos, não poderá haver paz no mundo.
 
6. Aqui estamos, irmãos peregrinos, neste local bendito, para reavivar a nossa comunhão com o Senhor e uns com os outros, para nos apoiarmos mutuamente nos caminhos da nossa vida, contando sempre com Jesus, que encontrou esta maneira maravilhosa de ficar connosco, na Eucaristia, mistério de amor e de doação da vida por todos nós. Alimentando-nos do Pão descido do céu, temos parte na sua vida e na sua glória. Aprendemos a viver numa atitude de doação, de gratidão, de misericórdia, de transformação da nossa vida em oferta agradável a Deus. Neste caminho de santidade contamos com a intercessão daquela que Jesus nos deu como nossa mãe, precisamente quando na cruz entregava a sua vida por nós, e que aqui em Fátima mostrou verdadeiramente ser mãe atenta aos filhos em dificuldade.
A ela nos confiamos, assim como todos aqueles que foram forçados a deixar a sua terra natal. A ela consagramos as nossas famílias, sobretudo as que mais sofrem as consequências das migrações que separam os seus membros e dificultam a sua agregação.
Maria, Mãe de Jesus e nossa Mãe, Senhora de Fátima e de tantos outros títulos com que sois invocada pelo mundo fora, confiamos em Vós, velai por todos os que vivem e trabalham longe da sua terra natal, amparai as suas famílias, uni-as no amor, rogai por nós, agora e na hora da nossa morte. Ámen.

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