04 de junho, 2026
“Não sei o que é ter uma casa com quatro paredes”Na visita temática de junho, o fotojornalista João Porfírio refletiu sobre o desafio de fotografar a catástrofe, mas também a humanidade que persiste onde a destruição se tornou banal.
Como se fotografa a guerra sem perder de vista a dignidade humana? Como se documenta a morte, o sofrimento ou a destruição sem transformar a dor em espetáculo? Estas foram algumas das questões que atravessaram a visita temática de junho, no passado dia 3, conduzida pelo fotojornalista João Porfírio, que partilhou o seu percurso em cenários de conflito e catástrofe. Editor de fotografia e fotojornalista do Observador, João Porfírio tem acompanhado alguns dos acontecimentos mais marcantes da atualidade, desde a guerra na Ucrânia e a queda do regime sírio até à pandemia de Covid-19, aos incêndios florestais e às cheias em Portugal. Porém, mais do que apresentar um conjunto de fotografias, o jornalista propôs uma reflexão sobre a responsabilidade ética de quem testemunha e regista esses acontecimentos. Ao longo da sessão, explicou que o papel do fotojornalista não passa apenas por mostrar o que acontece, mas também por encontrar formas de o fazer sem afastar o público da realidade retratada. Segundo o fotógrafo, imagens excessivamente chocantes podem gerar rejeição e indiferença, levando as pessoas a desviar o olhar de acontecimentos que importa compreender e recordar. Quando assim é, refere, “o nosso papel enquanto jornalistas falhou”. Foi neste contexto que apresentou algumas das opções que caracterizam o seu trabalho. Recorre frequentemente à simetria, a planos abertos e a enquadramentos que preservam a dignidade das vítimas, mesmo nos momentos de maior vulnerabilidade. “O nosso papel é fazer lembrar que aquilo está a acontecer”, defendeu, sublinhando que a fotografia deve aproximar as pessoas das histórias que conta e não afastá-las.
O conjunto de fotografias que João Porfírio partilhou na sessão conduziu os participantes por diferentes geografias e realidades. Da Síria chegaram imagens de bairros devastados pela guerra e dos efeitos duradouros dos ataques químicos. Mas, mais do que a destruição física, o fotojornalista procurou mostrar a forma como ela se tornou parte da normalidade para milhares de pessoas. E recordou o testemunho de um habitante sírio que lhe confessou: “não sei o que é ter uma casa com quatro paredes”. A frase sintetiza a realidade de gerações que cresceram entre edifícios destruídos, escombros e infraestruturas degradadas, explicou João Porfírio. Em muitos dos locais que fotografou, explicou, a guerra deixou de ser um episódio excecional e a destruição tornou-se o cenário permanente da vida quotidiana, onde as pessoas continuam a trabalhar, a estudar, a criar os filhos e a reconstruir rotinas. Em cada um dos trabalhos que trouxe à sessão, João Porfírio destacou a importância de construir relações de confiança com as pessoas fotografadas, respeitando momentos de intimidade e sofrimento. O jornalista recordou que muitas das imagens mais marcantes da sua carreira resultaram de um equilíbrio delicado entre o dever de informar e o respeito por quem vive os acontecimentos. A sessão permitiu ainda conhecer os bastidores do fotojornalismo em contextos extremos, revelando os desafios físicos, emocionais e éticos enfrentados por quem trabalha no terreno. Mais do que um relato de guerras e crises, a sessão constituiu uma reflexão sobre o poder da fotografia como instrumento de memória, testemunho e consciência coletiva. A próxima visita temática tem como convidado Frederico Lourenço, ensaísta e professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Está marcada para dia 1 de julho, como habitualmente, entre as 21h15 e as 22h30, no espaço da exposição temporária “Refúgio e Caminho”. A entrada é livre.
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