26 de maio, 2026

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Encíclica do Papa Leão XIV e a mensagem de Fátima: pontos de encontro 

Magnifica Humanitas: a encíclica que defende a humanidade na era da inteligência artificial foi publicada ontem.  

 

Na manhã desta segunda-feira, 25 de maio, foi apresentada, em Roma, a primeira encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas (Humanidade Magnífica). O documento já tinha sido assinado no passado dia 15 de maio, quando se cumpriam 135 anos da encíclica Rerum Novarum, na qual o Papa Leão XIII lançou as bases para o que viria a ser a Doutrina Social da Igreja moderna. 

Esta manhã, o Papa Leão XIV publicou um importante contributo para enriquecer este património eclesial, com uma primeira encíclica que pretende salvaguardar a dignidade humana na era da inteligência artificial (IA), onde a revolução digital e os algoritmos parecem suplantar-se à humanidade, através de transformações concretas no trabalho, nos critérios de verdade, na liberdade e nas relações humanas. 

Apesar de a preocupação central da “Magnifica Humanitas” ser os perigos decorrentes do uso da IA, a nova encíclica não se restringe a esta preocupação e apresenta uma releitura da Doutrina Social da Igreja à luz dos desafios do mundo atual, que vive uma mudança de época. 

Entre os alertas que Santo Padre lança no novo documento, há pontos de ligação com a mensagem de Fátima, sinal de que, apesar de ser deixada por Nossa Senhora há mais de cem anos, continua atual nos desafios para os quais convoca. 

 

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Santo Padre junto à Imagem de Nossa Senhora de Fátima que é venerada na Capelinha das Aparições, no início da vigília de oração pela paz, a 11 de outubro de 2025.

 

O coração como caminho e meta 

Em síntese, são cinco as grandes ameaças que o Papa Leão identifica na nova encíclica Magnifica Humanitas, concretamente, os perigos: da desumanização, da concentração de poder, da erosão da verdade, da normalização da guerra e do aparecimento de novas formas de escravidão. 

Como resposta a estes riscos, o Sumo Pontífice propõe: uma defesa intransigente da dignidade humana; uma lógica de partilha justa dos bens digitais, para que a tecnologia sirva todos; a promoção de uma "ecologia da comunicação", assente na transparência, na ética e na verdade, através de um uso responsável da IA e o regresso ao diálogo e à diplomacia. 

“O verdadeiro progresso nasce sempre de um coração aberto ao outro, de uma inteligência disponível para ouvir, de uma vontade que procura mais o que une do que o que separa”, lê-se logo na introdução da encíclica. A palavra coração é escrita 28 vezes ao longo documento e é este “lugar onde Deus deseja habitar” que é apresentado como caminho de onde parte a mudança e meta da construção do bem. 

Em Fátima, quando Nossa Senhora pede a devoção ao seu Imaculado Coração, mais que uma prática piedosa, está a propor a abertura do coração humano a Deus e ao próximo e, dessa forma, ao bem comum, por via da oração e do amor. 

 

A paz como caminho de uma responsabilidade partilhada 

Em 1917, a Mãe de Deus aparece aos Pastorinhos em Fátima, no auge de uma guerra mundial e pede oração, penitência e conversão para alcançar a paz. A nova encíclica é apresentada num contexto marcado por vários conflitos à escala mundial e alerta para o perigo da “normalização da guerra”. 

“As armas podem e devem ser silenciadas, pois não resolvem os problemas, mas só os aumentam”, escreve o Papa Leão, no capítulo V da encíclica, dedicado à oposição entre a cultura do poder e a civilização do amor. 

Esta ideia de que a guerra não é um destino inevitável, mas uma consequência de escolhas humanas está também presente nas palavras que Nossa Senhora deixou a Jacinta, Francisco e Lúcia, há cem anos: “Se fizerem o que Eu vos disser, salvar-se-ão muitas almas e terão paz". 

Em Magnifica Humanitas, o Santo Padre usa duas imagens bíblicas que vão ressoando ao longo do documento, de forma oposta: a da Torre de Babel, construída sem Deus, e a reconstrução das muralhas de Jerusalém, encetada por Neemias, na qual o trabalho é partilhado por todos, com Deus no centro. 

Em Fátima, a Virgem Maria aparece a três crianças com uma mensagem para o mundo, que aponta para Deus, e convoca todos, pedindo oração, penitência e conversão. Esta ideia de responsabilidade partilhada é comum à nova encíclica. 

“Não tenhamos medo de sujar as mãos no canteiro de obras do nosso tempo”, pede o Papa Leão XIV, no sentido de uma “corresponsabilidade corajosa e subsidiária”, onde cada pedaço da muralha cabe a “cientistas e estudiosos, empresários e trabalhadores, educadores e legisladores, sociedade civil, movimentos populares e comunidades de fé”. 

 

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Papa Leão XIV reza junto à Imagem de Nossa Senhora de Fátima, na vigília de oração pela paz, a 11 de outubro de 2025, na Praça de São Pedro.

 

A oração e conversão na essência 

A primeira encíclica deste pontificado e a mensagem de Fátima tocam-se na ideia de que nenhuma mudança estrutural é possível sem uma mudança interior, sem corações convertidos. 

“Não nos cansemos de rezar pela paz e de nos empenharmos para a concretizar nas nossas relações e na sociedade”, na parte final da Magnifica Humanitas, tal como a Virgem de Fátima pediu em 1917. 

A conclusão da encíclica é profundamente mariana e o Papa Leão XIV evoca uma citação sua da Meditação que apresentou na vigília de oração e rosário pela paz no Jubileu da espiritualidade mariana, a 11 de outubro de 2025, na Praça de São Pedro, diante da Imagem de Nossa Senhora de Fátima. Lidas no contexto da encíclica, as palavras põem a atenção nos descartados da era digital. 

“Assim faz também a Virgem Maria no cântico do Magnificat, quando fixa o seu olhar nas fraturas que marcam a humanidade, onde ocorre a distorção do mundo no contraste entre humildes e poderosos, entre pobres e ricos, entre saciados e famintos”, relembra o Papa, ao concluir com um olhar de esperança. 

“Com a mesma fé de Maria, tornemo-nos tecelões de esperança no nosso mundo. Na humilde fidelidade de cada dia, também a era da IA pode tornar-se uma etapa em que o Espírito faz amadurecer a civilização do amor na nossa vida”, escreve o Papa Leão XIV. 

Com a nova encíclica, a Igreja assume a linha da frente da defesa da humanidade, oferecendo caminhos para um mundo em mudança, tal como o fez há 135 anos, com a encíclica Rerum Novarum. Há 109 anos, em Fátima, também Nossa Senhora veio alertar a humanidade para o perigo da desumanidade, apontando sempre o olhar para Deus, como aquele que deve ocupar o coração dos Homens. 

 

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