19 de maio, 2026
No meio do “Vem Para o Meio”No arranque das inscrições para mais uma edição da iniciativa que oferece férias a pessoas com deficiência e aos seus cuidadores, fomos conhecer os bastidores que fazem o projeto acontecer.
No final do mês passado, abriram as inscrições para a iniciativa “Vem Para o Meio”, através da qual, entre os meses de julho e setembro, o Santuário de Fátima, com o apoio dos Silenciosos Operários da Cruz, oferece semanas de férias a pessoas com deficiência e aos seus cuidadores. A ideia surgiu em 2006, quando o então reitor do Santuário de Fátima desafiou a Associação dos Silenciosos Operários da Cruz (SOdC) a proporcionar um tempo de descanso para os pais que cuidavam de filhos com deficiência. “Conhecendo o nosso carisma, ligado à atenção da pessoa com deficiência, ele pediu-nos essa disponibilidade e, desde a primeira hora, colaboramos no apoio e também na cedência do nosso espaço, adequado a acolher estas pessoas”, conta o padre Johnny Freire, dos SOC, que integra o projeto desde a sua criação. Nesse primeiro ano, o acolhimento foi feito exclusivamente por membros dos SOC, mas, para garantir que esta oportunidade fosse oferecida a mais pessoas, desde logo se percebeu que este apoio exigia mais braços. No segundo ano, entrou em cena a preciosa ajuda dos voluntários. “Esta é também uma experiência de imersão para aqueles que se voluntariam, até porque lhes é pedido um acompanhamento permanente à pessoa com deficiência. Este contacto de perto com a pessoa vulnerável é a grande experiência da vida”.
No meio de tudo, existem heróisA iniciativa decorre no Centro de Espiritualidade Francisco e Jacinta Marto, dos SOdC, em Fátima, em seis turnos, entre os meses de julho e setembro de 2026, e o convite para o voluntariado foi lançado, no final de março, a maiores de 16 anos que estejam abertos “à novidade e à beleza” de acompanhar 24 horas por dia pessoas com deficiência. A decisão de abrir as inscrições para o voluntariado antes das inscrições para os participantes é uma estratégia logística para garantir a melhor capacidade de resposta do projeto, explica Rute Santos, do Departamento de Acolhimento e Pastoral do Santuário de Fátima, ao falar com profunda admiração pelo apoio dos voluntários. “Costumo dizer que eles são os meus heróis, porque acho que eu não era capaz de fazer algumas das coisas que eles fazem. É de uma entrega!... E há pessoas que tiram férias para poderem vir ao ‘Vem Para o Meio’”. A divulgação do voluntariado é feita através de secretariados de pastoral juvenil, universitária e de movimentos eclesiais como o Corpo Nacional de Escutas e o Movimento Católico de Estudantes, e é gerida numa plataforma online, para facilitar a organização das centenas de candidaturas recebidas. Apesar da natureza exigente deste serviço, o interesse no voluntariado deste projeto tem vindo a aumentar. Nos dias em que é concretizado, a dedicação excecional, o espírito de grupo e o apoio mútuo fazem superar as dificuldades com um sorriso nos lábios, num “altruísmo tão exigente quanto gratificante”, refere Rute Santos. Neste projeto, o voluntariado vai além de uma simples prestação de serviços ou de tarefas para uma experiência humana de partilha e relação, acrescenta o padre Johnny Freire. “O ‘Vem Para o Meio’ não é uma ocasião para fazer voluntariado; é uma ocasião para ser voluntário… Não é o que eu faço da pessoa com deficiência, mas o que eu vivo com ela”, explica.
Verdadeiramente no meioEntre 14 de julho e 4 de setembro, o Centro de Espiritualidade Francisco e Jacinta Marto vai acolher um total de seis turnos semanais com a missão de oferecer uma oportunidade de descanso e lazer a pessoas com deficiência e aos seus cuidadores. Mas até ao arranque do “Vem Para o Meio”, há toda uma jornada de preparação que envolve o Santuário de Fátima e os SOC. O processo inicia com a avaliação do ano anterior. Depois de delineadas as datas da edição atual, abrem-se as inscrições para os voluntários e só depois para os participantes, que envolvem a submissão e avaliação de documentação importante para a aceitação no projeto. Na seleção, o único critério de exclusão é o facto de a pessoa com deficiência estar institucionalizada 24 horas por dia, uma vez que o objetivo é dar descanso ao cuidador direto, explica Rute Santos. “Damos prioridade a quem vem pela primeira vez e a famílias com menos recursos económicos ou que vivam em contextos de maior isolamento”, esclarece a responsável pelas inscrições no Santuário de Fátima. Para proporcionar a melhor experiência possível a quem participa, cada turno está limitado a cerca de 60 pessoas, existindo uma gestão rigorosa de listas de espera para ocupar desistências de última hora. Na hora de início, chegam os protagonistas e principais destinatários de toda esta preparação: as pessoas com deficiência e os seus cuidadores que, após uma semana de férias, não poupam em agradecimentos pelo cuidado e atenção de quem se sentiu verdadeiramente no meio.
Testemunhos de quem participa“Ajudou-me a relativizar a vida e os nossos problemas enquanto família”. “Não conheço outro projeto no país que se foque no descanso dos pais de pessoas com deficiência. É inovador”. “Foi uma semana maravilhosa de muita alegria, reflexão, amor e reencontro com o Senhor e connosco próprios”. “Fizemos muitos amigos, já éramos todos uma família”. “Os sorrisos, abraços, beijinhos e energia contagiante não foram indiferentes a ninguém”.
Fotos: © Silenciosos Operários da Cruz |