08 de maio, 2026
Os cartazes temáticos do Santuário de Fátima por Emília NadalO tempo, a pastoral de cada época e a mensagem de Fátima são visíveis nos cartazes que Emília Nadal criou nas décadas de 1980, 1990 e 2000, a partir de temas pastorais, com mensagens intemporais.
Em sua casa, onde recebeu a Voz da Fátima, Emília Nadal observa, com olhar atento, cartazes de sua autoria. Das suas memórias de Fátima, recorda jornadas organizadas pela Juventude Universitária Católica e um manual de orações baseado em Salmos e citações das Escrituras que a marcou de forma profunda e a situou na oração e não na devoção. Ao olhar os cartazes, fala de um tempo e de circunstâncias em que essas suas obras levaram a mensagem de Fátima a Portugal inteiro.
Como surgem estes cartazes e a quem se dirigiam? Estes cartazes referem‑se sempre a uma época. A pastoral do Santuário de Fátima tinha sempre mensagens muito específicas e muito concretas, dirigidas não só às pessoas que iam a Fátima, mas ao país inteiro. Os cartazes eram enviados para todas as paróquias e afixados nas igrejas e as pessoas eram tocadas por estas mensagens, que podiam localmente ser mais desenvolvidas (sei que muitas vezes foram).
Na época, o então reitor, monsenhor Luciano Guerra, transmitia‑me os temas estudados e definidos pelo Santuário e fundamentados na Sagrada Escritura ou na orientação ou tempo da própria Igreja, a partir de temas definidos pelos papas.
O que têm de diferente e o que têm em comum estes cartazes? Todos são diferentes por tratarem uma diversidade de temas. Em comum têm um ponto de vista artístico, pois acompanharam a minha própria evolução como artista, na minha expressão do desenho. Há desenhos mais definidos e mais contidos e outros com um estilo mais livre, mais direto.
A ideia era essa, que o coração fosse luminoso. E pus um coração abstrato porque quis representar aquilo que o coração realmente significa em toda esta mensagem. Confesso que não me agradam imagens literais, muito realistas, ainda que sejam essas as imagens mais habituais nas devoções. É importante que as pessoas considerem o seu próprio coração, que é o centro decisor de todos nós.
O que é que quis transmitir nesta obra através dos diferentes elementos? A pomba é fundamental. É um símbolo da paz, mas sobretudo, neste caso, do Espírito Santo. Sem Espírito Santo não vamos a lado nenhum. É o dom do Espírito, o dom da Paz, que pode, se quisermos, ser dado a cada um de nós. Por isso mesmo, este cartaz tem umas linhas verticais, que vêm de cima e se projetam para baixo. A Paz vem de cima, pois a transformação vem pelo Espírito, e pode manifestar‑se em todas as consequências da obra de Deus. O Espírito Santo é algo que passa pelo humano, que, aqui, é o coração, e, se o move, transforma as coisas. Mas vem de cima, transcende o humano.
É um cartaz que aponta para a transformação interior? Sem o coração não se vai a lado nenhum; nem na vida nem espiritualmente.
Sim. O Santuário de Fátima, tal como qualquer outro local, pode ser local de transformação interior. Mas eu diria que Fátima é um apelo territorial a isso mesmo, à proximidade com Deus e à conversão. Mesmo pessoas que não são religiosas, quando visitam Fátima, podem sentir a força desse apelo. Por isso mesmo, identifica‑se Fátima com a conversão.
É o anjo a adorar o Santíssimo Sacramento. Tem claramente a ver com a mensagem de Fátima. Vemos, além do anjo, o cálice, o coração, a hóstia consagrada e o sangue.
Neste cartaz houve indicação para representar o ciclo angélico de Fátima? Neste e nos outros cartazes eu tive liberdade total para criar. Quando criei este, lembrei‑me da frase “todos os anjos O Adoram”. A minha criação costuma vir de uma frase que me surge. E aqui surgiu‑me no pensamento essa frase, razão pela qual quis representar não só o anjo que apareceu em Fátima, mas todos os outros.
Pode falar-nos um pouco mais desse processo criativo? O artista faz o que sente, aquilo que pensa e o que quer transmitir. Nas minhas criações não faço afirmações literais. As minhas afirmações são mais simbólicas, porque acredito que o simbólico é o que é realmente captado pelas pessoas. Cada um interpreta como sabe e como pode e eu gosto de levar as pessoas a pensar. O simbólico é elástico, é pleno, entra por outra via e não se detém em detalhes. Acredito na linguagem do simbólico. Se não seguimos essa via, diminuímos o que representamos.
Defende a livre criação e a livre interpretação? Sim. Gosto de espaço livre para a interpretação e que, pela beleza, pelo impacto, pela composição e pelas cores as pessoas sintam que gostam de ver a obra que faço.
Cada vez que pinta ou cria, reza? Sim, rezo. Se tenho de fazer algo que tenha uma mensagem, rezo a pedir que o Espírito Santo me ilumine e me indique o caminho.
Há a questão do perdão, interpretável de muitas maneiras. Eu pretendi dizer que, antes de chegar a Deus, temos de conseguir perdoar os outros e uns aos outros. Coloquei a referência não só ao filho pródigo, uma das parábolas mais conhecidas, não só entre os cristãos, mas no mundo. Neste cartaz está uma citação minha à própria pintura de Rembrandt. Vemos uma imagem que se repete, no Santuário, nos momentos de chegada dos peregrinos ao Recinto de Oração.
Quem são estas pessoas? Além do pai e do filho pródigo, estão aqui representados todos os outros. Vemos o casal, a família, o ambiente de trabalho, as relações entre mulheres, sogras e noras… Há diferentes faixas etárias, todas as idades e fases da vida. São grupos diferentes e pessoas com relações distintas entre si. Tudo isto decorre e converge do perdão e para o perdão de Deus e todos convergem para Fátima, que é um local com uma mensagem que aponta para o perdão e para o arrependimento e, depois, para a Paz.
O perdão é essencial para a Paz? É, e eu acho que essa é mesmo a parte mais difícil. Sempre conheci pessoas católicas e muito praticantes que não conseguem perdoar. Até a pais, a irmãos, a pessoas de família ou outros. Para perdoar é preciso querer perdoar.
O cartaz — “Só a Deus adorarás)” — representa uma cena bíblica.
É cada um de nós. Esse homem representa todos nós.
O que são os outros elementos simbólicos? A Sarça Ardente é símbolo da revelação de Deus. O deserto é simbólico, tal como a árvore meio cortada. As pedras podem significar o isolamento. A figura humana é o Homem, numa atitude de nudez e de transparência, por dentro e por fora, uma nudez de alma. Só assim é que o Homem pode adorar, para poder ouvir e escutar.
E a referência a Moisés? Moisés, acho‑o extraordinário como personagem. Os Hebreus eram um povo de pastores. Mas Moisés, no Egito, foi educado na corte do Faraó. Portanto, teria certamente uma estrutura interior densa. Porém, entra em contradição quando mata um egípcio, para defender os pastores e os Hebreus. Por isso, Moisés teve de fugir e ir para uma terra de ninguém. Encontrou aí a Sarça Ardente, a revelação de Deus, e, nesse momento, o importante foi ouvi‑lo. Aí, recebeu a sua missão.
Este sol, o que significa? É o sol que traz a luz da salvação nos seus raios.
Como vê a mensagem de Fátima? A mensagem de Fátima, com o tempo, à medida que lhe tem vindo a ser aplicada reflexão, tem aprofundado as razões, os motivos teológicos e o próprio conteúdo. Com isso, tem‑se atualizado. Nas questões religiosas o mais difícil é conhecer a fundo o significado e, para isso, é necessário ir além da superficialidade das devoções. A expansão do fenómeno Fátima foi imparável. Disso não há dúvida. Ao mesmo tempo, parece‑me que há abertura e liberdade. A qualidade da Liturgia, que eu acho que tem vindo sempre a melhorar, tem uma importância muito grande, pois faz com que todas as pessoas sintam que ali há um espaço sério de culto. Acho que o Santuário de Fátima está atualizado e é respeitado, mesmo por aqueles que não são católicos.
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